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Dedique 10 minutos a esta leitura para entender o xamanismo de uma vez por todas

Para saber no que consiste a prática xamânica, é necessário livrar-se de algumas limitações culturais

Com o intuito de explicar o conceito de xamanismo numa maneira facilmente compreensível a qualquer leigo, é mais fácil começar contextualizado certos padrões próprios de nossa cultura – uma cultura sem nenhum traço xamânico, mas que vem “paquerando” o xamanismo desde o século passado, em especial depois do boom das experiências lisérgicas de expansão da consciência nos anos 60.

xamanismo
O crescente uso de substâncias enteógenas (como ayahuasca) na cultura ocidental vem gerando um progressivo interesse na prática xamânica…

Tomemos como primeiro exemplo o modelo religioso (seja lá qual for a religião). Nos sistemas de crenças religiosas, o conhecimento sobre a realidade supostamente se encontra em livros (a Bíblia cristã, o Alcorão islâmico, a Torá judaica, o Mahabharata hindu, o Tripitaka budista etc.). Assim, num panorama religioso o discernimento do que é verdadeiro ou falso independe do indivíduo, pois existe com ou sem ele… Já está tudo gravado em papel, papiro, argila ou e-book. Logo, o indivíduo não exerce qualquer influência sobre tal visão predeterminada da realidade. Em outras palavras, podem surgir mil teorias de que Jesus nunca existiu, ou que ele era uma mulher, ou um extraterrestre (ou qualquer outra coisa) e o livro que dá embasamento à religião (neste caso, a Bíblia) jamais mudará sequer uma vírgula por conta disso. De fato, tais livros levam séculos para passarem por mínimas mudanças, geralmente ocasionadas por erros de tradução.

Agora vejamos um exemplo com o qual temos mais familiaridade, por vivermos no mundo ocidental de vanguarda tecnológica: o modelo racional/científico. A um princípio, o conhecimento também independe do indivíduo. Por mais que você não goste da gravitação dos astros e prefira ver a Terra como um objeto plano, ninguém vai escrever um livro cientificamente reconhecido que corrobore esse seu ponto de vista. Portanto, o modelo científico se difere do religioso em dois pontos fundamentais… Um é que no âmbito científico tudo deve ser comprovado dentro de parâmetros lógicos. O outro é que eventualmente o conhecimento pode ser influenciado pelo indivíduo (vide Pitágoras, Einstein, Newton, Kepler, Hawking, etc.). Contudo, o indivíduo é na esmagadora maioria dos casos absolutamente irrelevante para o conhecimento em si, salvo que sua genialidade lógica/racional se imponha sobre o sistema científico já estabelecido.

Tendo em vista o exposto acima, fica bem mais fácil entender o conceito da prática xamânica (e também compreender porque se trata de algo tão alheio ao senso comum em nossa cultura). O modelo de conhecimento xamânico é absolutamente centrado no indivíduo. Não há livros fundamentais (e nem mesmo secundários), pois se houvessem, seria necessário um livro específico para cada pessoa. A prática xamânica diz respeito a uma maneira pragmática de se conectar com a sabedoria que emana do universo e de tudo o que nele existe. Assim, a natureza é o “livro” e o xamanismo é a sua “leitura”. Para aprender a “ler”, deve-se mergulhar em si mesmo, tal qual se mergulha na água para aprender a nadar. O xamã é um “nadador” experiente… Uma vez que você reconheça sua habilidade e sabedoria, ele pode até lhe dar bons conselhos, mas quem tem que nadar é você. Dessa maneira, diferentemente do pensamento religioso e do lógico/racional, na atividade xamânica você é o grande protagonista da “aventura sagrada” (e não Buda, Maomé, Krishna, Moisés ou Jesus) e você é o grande cientista (e não Galileu, Tesla ou Darwin). Logo, se você tiver medo de entrar na “água”, o xamanismo não terá nenhuma resposta para você. Nenhum criacionismo, nenhum evolucionismo e nem qualquer outra resposta pronta (tal qual proporcionam as religiões e as ciências). O xamanismo é osmótico… Nele, o conhecimento se absorve. Portanto, o conhecimento não se lê e nem se fala, o xamã apenas aponta onde se pode encontrá-lo – e esse caminho invariavelmente passa pela natureza e seus elementos, que nos permitem mergulhar em nós mesmos e desde aí “voar” em todas as direções.

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Todas as vertentes da atividade xamânica se baseiam no autodescobrimento e na aprendizagem através de um contato mais profundo com a natureza, sendo os enteógenos (ou plantas de poder) suas principais ferramentas.

Com tudo isso, se você ainda pensa que xamanismo tem a ver com crenças em espíritos da natureza ou pajelanças, não poderia estar mais errado. Estes são mitos criados por nossa própria cultura, por esta representar uma mentalidade incapaz de abarcar o conceito de um conhecimento que parte de dentro para fora – em oposição ao conhecimento que jaz inerte em livros, em palavras e em equações. Convivi por muitos anos com xamãs de notável fama no Peru e, pessoalmente, nunca vi nenhum acreditar em nada além de sua própria capacidade de aprender. 

Por fim, se tudo isso ainda lhe parece um tanto obscuro, é porque não se pode buscar do lado de fora algo que só se encontra dentro de si mesmo. Quanto à essa busca interior, dificilmente se consegue mergulhar nas profundezas da própria consciência sem um empurrãozinho… E é por isso que a prática xamânica sempre foi essencialmente vinculada ao uso de plantas psicodélicas/enteógenas.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

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