Psicoativos e Enteógenos

Um novo vocabulário para uma nova era, parte 1

Se vivemos num novo tempo, de novas descobertas e novos saberes, então por que ainda descrevemos a vida como se estivéssemos na Idade Média?

Após alguns milênios de evolução do pensamento lógico/racional e ainda mais tempo de xamanismo/enteogenia, a humanidade recentemente pôde presenciar o encontro de ambos. É como se vivêssemos numa era em que, finalmente, começam a interagir a “ciência do céu” e a “ciência da terra”. Na medida em que se harmonizam estas duas vertentes do conhecimento humano (as duas principais, diga-se de passagem), imagino que seja necessário um mínimo ajuste conceitual, dado que muitas expressões que se utilizam atualmente são praticamente as mesmas de mil anos atrás. Assim, neste artigo trago propostas para alguns termos que, sem dúvida, urgem por uma revisão (para a reprovação dos mais conservadores, pois a verdade nunca agrada a todos)…

Nada como uma boa experiência psicodélica para demonstrar a insuficiência da linguagem em descrever a própria existência

Deus – é certo que há uma inteligência por trás da realidade (ainda que, ao menos aos olhos dos físicos, seja uma inteligência mais bem descrita matematicamente que verbalmente). Em todo caso, no contexto da experiência enteógena, acaba ficando evidente que não há como chegar a este conceito através da linguagem, seja ela literária, matemática ou artística. Ainda assim, a maior parte da humanidade insiste no uso da palavra “Deus”. A razão disso é muito simples: é mais confortável dar a essa inteligência um caráter humano (ou seja, uma personalidade amorosa), para que, dessa forma, o indivíduo se sinta seguro – como se houvesse uma força superior cuidando-lhe e nunca o deixando sozinho. Provavelmente, as pessoas de fato são mais felizes acreditando em Deus, assim como as crianças são mais felizes acreditando no Papai Noel. De toda forma, a palavra “Deus” me soa a moedas de ouro tilintando em templos regidos por sacerdotes materialistas. Além do mais, a ideia de algo que divide a existência em conceitos dualistas e estáticos (como certo e errado, bem e mal, céu e inferno, etc.) não condiz com a natureza infinitamente diversa e dinâmica da realidade.

Qual seria a palavra correta, então? Na minha opinião, nenhuma. É algo que está aí para se sentir, e não para se falar a respeito. Em outras palavras, ao invés de doutrinar e impor conceitos abstratos sobre coisas que, essencialmente, transcendem a lógica humana, as pessoas agiriam bem melhor se simplesmente as sentissem e aprendessem com elas.

Alma/Espírito – aqui vou citar o inventor Nikola Tesla, hoje considerado um dos grandes gênios da história da humanidade: “se você quiser descobrir os segredos do Universo, pense em termos de energia, frequência vibração”. Após um pequeno estudo sobre física somado a um pouco de vivência psicodélica, você certamente chegará à conclusão que sua essência não é diferente. Referir-se à própria existência como energia, frequência e vibração me parece bem mais adequado que usar termos carregados de interpretações religiosas e fantasmagóricas (como “alma” ou “espírito”) – ainda que “energia”, “frequência” e “vibração” também sejam apenas meras palavras e, portanto, insuficientes para abarcar a realidade de forma totalmente objetiva.

Alucinógeno – há de se repetir dez, vinte, mil vezes ou quantas mais seja necessário: não existem alucinógenos. O que existem são elementos que conduzem a estados alterados de consciência – em se tratando dos efeitos de cogumelos psilocibínicos, ayahuasca, cactos mescalínicos, entre muitos outros, estamos falando de estados aumentados de consciência. Objetivamente, essas substâncias levam a uma clareza mental tão evidente que seria mais adequado chamá-las de “anti-alucinógenos”, na medida em que nos retiram da alucinação cotidiana na qual nossas consciências jazem adormecidas. Daí a nomenclatura mais apropriada: enteógeno (ou psicodélico).

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