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O FAQ básico da educação psicodélica – parte 2

(Para ler a primeira parte, clique neste link)

A experiência psicodélica é divertida?

Não. Este é um mito propagado pelo fato de que algumas substâncias (tais como a cannabis) frequentemente proporcionam experiências divertidas e prazerosas. Como nossa cultura prefere ignorar um conhecimento mais amplo sobre este tema, estabelece-se uma linha erroneamente tênue entre os psicodélicos propriamente ditos e outras classes de psicoativos. Assim, muitas vezes se cria um contexto social que direciona o indivíduo à falsa expectativa de que a experiência psicodélica seja recreativa. Por exemplo: ser golpeado brutalmente não é agradável sob nenhum ponto de vista, mas o MMA é um esporte muito cativante. De maneira similar, por si só a experiência psicodélica não é divertida, mas acaba sendo culturalmente condicionada para tal. Este fenômeno pertence exclusivamente ao mundo contemporâneo, dado que não há qualquer registro histórico anterior ao século XX do uso supostamente recreativo de substâncias psicodélicas (cogumelos, peiote, iboga, ayahuasca etc.).

Então por que todos parecem estar se divertindo horrores nessas raves e festivais psicodélicos?

Primeiro, porque geralmente utilizam doses consideravelmente aquém do necessário para uma experiência efetivamente psicodélica. Segundo, porque quando a mente de uma pessoa desse círculo cultural de fato ingressa a um plano psicodélico (o que costuma ser subjetivamente muito assustador), classifica-se este tipo de experiência como uma “bad trip”, por pura falta de conhecimento. Não existem bad trips… O que existem são pessoas que não têm a menor ideia da função da atividade psicodélica. Esta função é aproximar o indivíduo à realidade, e não afastá-lo da mesma.

O FAQ básico da educação psicodélica – parte 2
Não obstante a natureza relativística da experiência psicodélica, é fato que a sua associação com o lazer pertence apenas a nossa cultura. Por quê?

E por que isso não pode ser divertido?

Porque o plano psicodélico conduz à consciência da absoluta fragilidade humana frente à natureza em estado bruto. Quando se está diante das portas do infinito (e qualquer definição menos superlativa não condiz com uma experiência psicodélica de fato), dramaticamente despido de qualquer ilusão egocêntrica, o próprio conceito de diversão se dissolve na profundidade avassaladora da experiência. Em outras palavras, ela tem tanta graça quanto passar um ano sozinho numa ilha deserta (e é igualmente instrutiva).

Usando psicodélicos, eu corro o risco de virar um fanático de alguma religião ou filosofia?

Ao ser aberta a uma perspectiva muito mais ampla e profunda, a sua mente vai buscar ancorar-se na forma mais factível em que possa definir a realidade – o que, em muitos casos, está relacionado a conceitos religiosos e filosóficos (tais como “divino”, “místico”, “espiritual” etc.). Em última instância, contudo, a complexidade da revelação psicodélica é algo que faz com que conceitos linguísticos se mostrem insuficientes e até mesmo irrelevantes. Portanto, o apego a doutrinas, pontos de vista estáticos e ideologias é incompatível com a atividade psicodélica.

Num dia sem nada pra fazer, o que você tem a perder?

O FAQ básico da educação psicodélica – parte 1

A seguir, algumas perguntas simples e frequentes a respeito da atividade psicodélica (o uso de substâncias como psilocibina, mescalina, DMT e LSD), seguidas por respostas suficientemente simples ao entendimento de qualquer leigo…

Essas substâncias psicodélicas causam alucinações?

Não, este é um velho mito que passa muito distante da realidade. Para entender isso, há de se levar em conta que elas costumam levar a experiências assustadoras, uma vez que, dadas suas propriedades neuroquímicas, trazem à consciência muito daquilo que jaz oculto no subconsciente. Considerando que é uma reação frequente do ser humano descartar e ignorar aquilo que ele tem medo ou não pode compreender facilmente, daí a classificação de seus efeitos como meras alucinações. Tratar tais substâncias como alucinógenos é bem semelhante a tratar telescópios como bruxaria (o que de fato se fazia até mais ou menos o século XVII).

Então por que muitas dessas substâncias são proibidas?

Porque quando você começa a dizer abertamente que usa substâncias psicodélicas, não são apenas seus pais que não sabem como lidar com essa situação… Também o Estado não sabe como lidar com isso. Seus pais, assim como o Estado, querem (mais do que isso, necessitam) entender exatamente tudo o que você faz – e a atividade psicodélica é algo que simplesmente não se pode compreender do lado de fora, ou seja, da perspectiva de um mero espectador. Muitos pais são inseguros e autoritários, e mais ainda o são os Estados, pois estes últimos se baseiam, quase que invariavelmente, em princípios sociais patriarcais, belicosos e obcecados por controle e soberania. Daí a paranoia da proibição.

educação psicodélica
Essas perguntas são bem comuns entre os leigos no assunto. Se lhe perguntassem, você saberia respondê-las de uma maneira adequada?

O que se aprende com o uso dessas substâncias?

Como elas são catalisadoras de processos de superação e expansão da própria consciência, perguntar isso é quase o mesmo que perguntar “o que se aprende com dez anos de vida?”… Não se pode colocar numa caixa algo muito maior do que ela – neste caso, a caixa é a linguagem através da qual essa pergunta é formulada e através da qual ela pretende ser respondida, e o conteúdo da experiência é uma resposta que jamais caberá nela.

A grosso modo, apenas para dar um “aperitivo”, com a prática psicodélica progressivamente se percebe, entre muitas outras coisas, a natureza fluída da consciência e da realidade, o que conduz a uma mentalidade mais aberta a novas formas de conhecimento, a uma visão mais equilibrada das relações interpessoais, a um sentimento mais profundo de conexão com a natureza e a uma maior plenitude no viver.   

Então a educação psicodélica significa que todas as pessoas deveriam usar essas substâncias, da mesma maneira que todos devem ir à escola?

A educação psicodélica diz respeito ao entendimento coletivo e institucional de que esta atividade é algo absolutamente normal, sem riscos e de grande potencial terapêutico e de desenvolvimento psicológico. Por exemplo, você não precisa viver no campo para aceitar que existam pessoas que preferem viver lá, que essa opção deve ser respeitada e que seu potencial como um estilo de vida mais  tranquilo e equilibrado deve ser reconhecido. Em outras palavras, o uso de psicodélicos deveria ser tratado com a mesma naturalidade que viver no campo – nisso consiste a educação psicodélica. Seria absurdo proibir, ter preconceito ou mesmo criticar alguém pelo simples fato de preferir morar no campo, não é verdade? Tampouco faria sentido obrigar alguém a morar no campo.

Num dia sem nada pra fazer, o que você tem a perder?

Os Dois Vilões da Educação Psicodélica

Com este título, pode parecer que o artigo irá tratar de temas como a proibição de psicodélicos e a sua difamação por ignorantes ou conservadores. Contudo, o que se abordará aqui são obstáculos bem mais sutis à evolução da cultura psicodélica, os quais dificultam o entendimento geral da importância dessas substâncias. São eles:

1 – O uso de psicodélicos em dosagens insuficientes 

Este fato, apesar de a um princípio parecer limitar-se ao âmbito individual, na realidade representa um grande desserviço à cultura psicodélica como um todo. À exceção de pessoas completamente leigas e desinformadas, todos sabem que experiências psicodélicas levam a um entendimento mais profundo sobre a vida e a natureza, que não representam nenhum risco à saúde e que há muito o que se aprender com elas. No entanto, o que mais se vê hoje em dia são legiões de pessoas que, frente à “piscina psicodélica”, apenas colocam os pés na água, com medo de entrar e se afogar. Seria bem mais proveitoso um único mergulho profundo, do qual todos voltariam sãos e salvos, do que passarem a vida inteira apenas sentados na beira da piscina, ocupando espaço. 

Compare a força cultural da identidade psicodélica dos anos 60 com o presente cenário e leve em consideração que a dose mediana de uma unidade de LSD era, naquela época, aproximadamente dez vezes superior à atual, segundo análises laboratoriais. Não é uma coincidência. Apenas com dosagens ínfimas (como as da atualidade) é possível levar na brincadeira algo tão importante quanto a atividade psicodélica – e quando algo é levado a sério por muita gente, sua relevância cultural é uma consequência inevitável.

2 – A visão da prática psicodélica como algo radical, ousado ou que traspassa limites

Isto é um efeito direto do ponto abordado acima, pois consiste justamente numa atitude resultante do uso de psicodélicos em dosagens insuficientes. Perceba que são as mesmas pessoas que utilizam essas substâncias em quantidades tímidas que costumam referir-se como “malucos”, além de relatar que, trás o seu uso, “fritaram”, “ficaram muito loucos”, entre outras bobagens. Para quem passou pela efetiva transformação psicodélica, não há nada de radical nessa atividade… Ela consiste numa natural e necessária reconfiguração existencial, com o propósito de levar uma vida mais plena e equilibrada e despertar a percepção da realidade tal como é. 

Ao invés de falar sobre a prática psicodélica como algo de outro mundo (ainda que de fato o seja), mistificando tal atividade, é muito mais interessante explorar essa verdade mais a fundo e perceber que, no fim das contas, a experiência psicodélica é a coisa mais normal que poderia acontecer em sua vida – pois normal é a infinitude multidimensional revelada pela experiência psicodélica, e radical é a maneira com que o ser humano passa a vida inteira se esforçando em fechar os olhos a essa realidade.

Timothy Leary e Terence McKenna
Timothy Leary e Terence McKenna: dois precursores, para não dizer heróis, da educação psicodélica na civilização ocidental.

Uma meta para o século XXI

A partir da educação da sociedade sobre a normalidade da atividade psicodélica, ou seja, da popularização desta atividade como algo tão natural quanto quaisquer outros fatores fisiológicos, tais como o sono e a alimentação, poder-se-á desfrutar do pleno potencial dos psicodélicos como ferramentas formadoras de coesão e equilíbrio – não apenas individual, mas social. A difusão desta postura deve iniciar-se na própria comunidade psicodélica, através do estímulo a uma imersão mais profunda nesta prática, com a finalidade de abandonar a absurda perspectiva da mesma como algo radical.

A meta é que, ainda neste século, se popularize a noção de que, se quem passa a vida consumindo essas substâncias em dosagens medíocres é “maluco”, quem o faz em dosagens plenas, ainda que uma única vez na vida, é absolutamente normal – tal qual se observou desde sempre em sociedades de cunho xamânico.

Num dia sem nada pra fazer, o que você tem a perder?