Arquivo da tag: cannabis

O verdadeiro motivo da proibição da maconha

Hoje, tanto pela mídia alternativa quanto pela grande mídia, somos constantemente bombardeados por matérias que expõem os benefícios medicinais e terapêuticos da cannabis. De fato, desde os tempos mais obscuros da propaganda de proibição (na metade do século passado) nunca houve qualquer estudo sério que delimitasse cientificamente um risco considerável decorrente do uso desta planta. O motivo é muito simples: não há nenhum risco relevante.

Não havendo um caráter nocivo, o porquê da proibição aparenta ser uma mera formalidade legal, relativamente obsoleta. Na realidade, porém, ela consiste numa importante engrenagem na máquina de poder, e muito atual… Algo que a maioria das pessoas não lê nas entrelinhas.

Através da proibição, o Estado muito sutilmente reitera que os corpos dos cidadãos lhe pertencem. Note que, fundamentalmente, quase todo governo se baseia no poder militar/policial, seja de forma implícita (ao exemplo do Brasil) ou explícita (ao exemplo dos países do Oriente Médio, da Rússia e dos EUA). As poucas exceções se encontram, na maior parte, na Europa. Isso significa que, por baixo de uma roupagem de fomento à modernização, de integração transnacional, de desenvolvimento social e de promoção dos direitos individuais, a maioria dos países do mundo contemporâneo continuam seguindo a diretriz de preservação da autoridade institucional – o que se faz através da imposição da força.

A recente descriminalização da maconha em muitos estados norte-americanos não foge a essa lógica… Na verdade, até contribui para sua explicação. Por se tratar de um país de poderio externo (militar) e interno (policial) indiscutivelmente consolidados (ao contrário do Brasil), os EUA não necessitam de determinados instrumentos de controle (tais como a proibição da maconha ou do porte de armas de fogo) para reforçar sua soberania, podendo “dar-se ao luxo” de estar na vanguarda democrática em alguns assuntos que não afetam diretamente a segurança nacional.

O verdadeiro motivo da proibição da maconha
Os EUA, que até pouco tempo atrás protagonizaram uma incansável cruzada contra a erva, hoje têm a venda da cannabis legalizada em seus Estados mais populosos e economicamente importantes. Mas, afinal, qual é a lógica por trás desse jogo?

Basta recordarmos que, tal qual a proibição da maconha o é hoje, a censura dos meios de comunicação também já foi uma impopular ferramenta de afirmação da autoridade – sendo também descartada pelo governo norte-americano bem antes que pelo brasileiro. Nesse quadro, a soberania nacional se resguarda por meio do militarismo, que por sua vez faz do indivíduo um meio, não um fim, resumido-o a um “corpo” a serviço do Estado. Por outro lado, países europeus como a Holanda (que oficialmente descriminalizou a venda de pequenas quantidades e o uso pessoal da cannabis em 1976) apresentam desde o período pós-guerra uma peculiar orientação política na qual, inversamente ao militarismo predominante, o indivíduo é o fim, não o meio. Nesse caso, a soberania nacional emana principalmente dos valores civilizacionais (no plano interno) e da relevância econômica e diplomática (no plano externo), não havendo nenhuma prioridade na manutenção do potencial repressor do Estado quando não há uma lógica que o justifique. A legalização da maconha no Uruguai segue esta linha, mas representa antes uma ousada abertura política do que o resultado de uma longa tradição liberal.

Para resumir, se compararmos o país a uma unidade familiar tradicional e o uso da cannabis a um hábito basicamente inócuo, mas conservadoramente reprovável (como sentar-se com os pés sobre a mesa, por exemplo), chegaremos a uma metáfora que simplifica a situação: seu pai (o Estado) não o proíbe de fazê-lo (plantar, armazenar, vender e usar) porque ele acha isso prejudicial pra você (o cidadão) ou pra família (a sociedade). Embora ele finja ser este o motivo, ele sabe muito bem que isso não gera nenhum malefício real. Ele o proíbe porque, por ser um cara desequilibrado e inseguro, ele precisa estar sempre deixando claro que é o dono da casa e que, por essa razão, tem legitimidade para agir de forma opressora (sua soberania emana da manutenção da autoridade, e não da proteção à liberdade individual).

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho…

O Maior Dentre Os Benefícios Da Maconha

Ao se falar sobre os benefícios da cannabis, logo vêm à mente suas propriedades terapêuticas, sua utilidade medicinal, seu estímulo criativo ou até mesmo seu aspecto meramente recreativo. Contudo, neste artigo pretendo demonstrar que nenhuma dessas é a maior conveniência do uso da erva.

Frequentemente, as coisas mais importantes são as mais sutis e, portanto, costumam passar desapercebidas pela maior parte das pessoas. A isso acrescente-se o fato de que, ironicamente, o principal motivo pelo qual algo é criticado não raro consiste em sua maior qualidade. Assim, podemos citar sua professora da quinta série, seus parentes mais velhos e aquele seu coleguinha “caretão”, que categoricamente afirmaram que “o maior problema da maconha é que ela leva a drogas mais pesadas”.

Vamos dar uma analisada nesta frase…

Se por “drogas” entendemos estimulantes (como cocaína e anfetamina) e narcóticos (como opiáceos), por certo não é a maconha o psicotrópico que conduz a elas, mas sim o álcool. Em nossa civilização, é através do estímulo cultural ao consumo de álcool que se tem a primeira percepção de que alterar o estado de consciência pode ser algo prazeroso (e socialmente louvável). Não é necessário refletir muito para compreender que, mesmo que não existisse a cannabis, de qualquer forma as pessoas utilizariam aqueles entorpecentes, provavelmente em escala até maior.

Porém, se por “drogas” nos referimos a substâncias psicodélicas, como por exemplo cogumelos, tal problema subitamente se transforma numa enorme vantagem…

Se há algo que se pode afirmar com absoluta certeza, é que a experiência psicodélica proporciona uma perspectiva muito mais ampla e equilibrada sobre a vida. Aparentemente, não há limites para o quanto se pode aprender e evoluir através do contato com enteógenos/psicodélicos. Se partirmos do princípio que, em nosso cenário cultural, a grande maioria dos psiconautas ingressa nesta atividade graças a uma curiosidade inicialmente despertada pelo uso da maconha, então há de se conceder o devido mérito à erva por ajudar milhares de pessoas a transcenderem as limitações de suas próprias culturas e paradigmas.

A curiosidade mencionada acima se origina no fato de que é geralmente através da cannabis que as pessoas têm seu primeiro vislumbre da “sabedoria vegetal”, ou seja, do aspecto altamente construtivo da interação psicossomática com a planta. Ainda que seus efeitos não sejam nem de perto tão dramáticos e transformadores quanto os de enteógenos (cogumelos psilocibínicos, cactos mescalínicos, ayahuasca, etc.), é digno de atenção o fato de que o hábito canábico gera interesse sobre tais estados de conexão com a natureza e de elevação da consciência – ainda que não em todos os usuários.

Benefícios da maconha
Muitas vezes se ignora aquilo que, na opinião do autor, é a maior qualidade da maconha: sua capacidade de abrir os olhos das pessoas à sabedoria da natureza e, dessa maneira, criar interesse na prática enteógena

Aliás, depois de tudo o que foi disposto acima, é importante salientar que não se pode definir a maconha como um enteógeno. Se a enteogenia dependesse de crenças ou rituais, bastaria um culto em que o lúpulo e a cevada fossem considerados elementos “sagrados” e, dessa forma, poder-se-ia tratar a cerveja como tal.  De fato, se assim o fosse, até mesmo a hóstia católica poderia ser considerada um enteógeno. A enteogenia, porém, não advém do contexto cultural… Independentemente das origens e crenças do indivíduo, uma experiência enteógena reconfigura sua percepção de vida de modo completo e permanente, aproximando-o à essência de tudo o que existe. Portanto, se a maconha fizesse parte desse grupo de substâncias, certamente a realidade que observamos nas favelas e periferias de nosso país seria tão pacífica quanto aquela que se presencia em comunidades daimistas, apenas para citar um exemplo.

A ampla difusão da cannabis não resulta necessariamente em harmonia social porque, por não se tratar de uma experiência efetivamente psicodélica, é plenamente possível ser usuário da erva e ao mesmo tempo manter comportamentos abusivos e autodestrutivos – ainda que, logicamente, estes não sejam causados pelo seu uso (como até hoje professa a imbecil, prejudicial e falaciosa política de guerra às drogas). Já no âmbito enteógeno, as atitudes do indivíduo devem, inevitavelmente, adaptar-se a um padrão ético que se forma no decorrer da própria experiência (e não a um padrão imposto culturalmente). Assim, a experiência psicodélica dissolve os modelos mentais programados culturalmente e direciona a consciência àquilo que realmente importa.

Em conclusão, sem ignorar seus detalhes terapêuticos, medicinais, bem-estar, etc., não tenho dúvidas de que o maior benefício da cannabis é o de que ela realmente pode levar a drogas mais fortes – lembrando que por “droga” deve-se também entender “medicina”. A coragem para usá-las em uma dosagem efetivamente enteógena, porém, depende de cada um… E quem chega lá sabe que não há recompensa maior (ao menos não neste canto da galáxia, aparentemente).

Compartilhe… Coletivize… Psicodelize!

Por Que Você Deveria Gostar Mais de Enteógenos Que de Maconha

O fato de conduzir o usuário a um prazeroso estado de relaxamento mental e contemplação, o que por si só faz da cannabis a planta psicoativa mais utilizada no mundo, não significa que a erva figure no rol de substâncias enteógenas, tais como cogumelos, ayahuasca, peiote, etc. A razão disso é clara: os efeitos da maconha não se processam de forma alheia à vontade e ao ego do indivíduo, ao passo em que, numa experiência enteógena, resta ao psiconauta render-se às revelações que se lhe apresentarão – o que resulta numa grande lição de vida. 

Em outras palavras, fume um baseado, por mais forte que seja, e amanhã você ainda será a mesma pessoa, olhando a vida com os mesmos olhos (talvez ainda um pouco vermelhos e “estourados”, mas enxergando a mesma realidade). Em contrapartida, coma uma dúzia de cogumelos psilocibínicos ou beba um copo de uma boa ayahuasca, por exemplo, e amanhã você e sua maneira de ver o mundo não serão mais os mesmos…

 

A maconha é uma companheira que lhe trata muito bem em todas as situações, sem nunca discordar de você… Mas será que essa é a amizade ideal?

“Afinal, por que eu deveria preferir as insólitas viagens enteógenas às delícias canábicas?”

Porque o enteógeno é aquele seu amigo chato e antissocial que lhe diz as verdades na cara, provando e comprovando que ele de fato conhece tais verdades – como você pode perceber, ele não é lá muito popular. Já a maconha é o seu amigo divertido, cuja companhia todos adoram em qualquer momento (seja no trabalho ou no lazer), pois dá tapinha no ombro, é agradável e tem um bom papo – logo, é sociável e muito popular. No fim das contas, você tem motivos pra gostar dos dois, mas a balança sempre tende a pesar mais pro lado da descontração prazerosa que do mergulho profundo… Em outras palavras, as pessoas quase sempre preferem o conforto ao confronto (ainda que o confronto psicodélico se dê apenas no plano psíquico individual).

Diga-se de passagem, uma das ilusões mais absurdas já promovidas por nossa cultura é a preconceituosa visão da enteogenia como algo recreativo, perigoso ou uma fuga da realidade. Na verdade, trata-se de um autêntico trabalho de evolução como ser humano, tanto seguro quanto equilibrado. Não se deve jamais julgar ninguém por preferir o mais fácil, mas é bom salientar que, muitas vezes, o mais difícil rende melhores frutos.

Compartilhe… Coletivize… Psicodelize!