Psicoativos e Enteógenos

Os Dois Vilões da Educação Psicodélica

Com este título, pode parecer que o artigo irá tratar de temas como a proibição de psicodélicos e a sua difamação por ignorantes ou conservadores. Contudo, o que se abordará aqui são obstáculos bem mais sutis à evolução da cultura psicodélica, os quais dificultam o entendimento geral da importância dessas substâncias. São eles:

1 – O uso de psicodélicos em dosagens insuficientes 

Este fato, apesar de a um princípio parecer limitar-se ao âmbito individual, na realidade representa um grande desserviço à cultura psicodélica como um todo. À exceção de pessoas completamente leigas e desinformadas, todos sabem que experiências psicodélicas levam a um entendimento mais profundo sobre a vida e a natureza, que não representam nenhum risco à saúde e que há muito o que se aprender com elas. No entanto, o que mais se vê hoje em dia são legiões de pessoas que, frente à “piscina psicodélica”, apenas colocam os pés na água, com medo de entrar e se afogar. Seria bem mais proveitoso um único mergulho profundo, do qual todos voltariam sãos e salvos, do que passarem a vida inteira apenas sentados na beira da piscina, ocupando espaço. 

Compare a força cultural da identidade psicodélica dos anos 60 com o presente cenário e leve em consideração que a dose mediana de uma unidade de LSD era, naquela época, aproximadamente dez vezes superior à atual, segundo análises laboratoriais. Não é uma coincidência. Apenas com dosagens ínfimas (como as da atualidade) é possível levar na brincadeira algo tão importante quanto a atividade psicodélica – e quando algo é levado a sério por muita gente, sua relevância cultural é uma consequência inevitável.

2 – A visão da prática psicodélica como algo radical, ousado ou que traspassa limites

Isto é um efeito direto do ponto abordado acima, pois consiste justamente numa atitude resultante do uso de psicodélicos em dosagens insuficientes. Perceba que são as mesmas pessoas que utilizam essas substâncias em quantidades tímidas que costumam referir-se como “malucos”, além de relatar que, trás o seu uso, “fritaram”, “ficaram muito loucos”, entre outras bobagens. Para quem passou pela efetiva transformação psicodélica, não há nada de radical nessa atividade… Ela consiste numa natural e necessária reconfiguração existencial, com o propósito de levar uma vida mais plena e equilibrada e despertar a percepção da realidade tal como é. 

Ao invés de falar sobre a prática psicodélica como algo de outro mundo (ainda que de fato o seja), mistificando tal atividade, é muito mais interessante explorar essa verdade mais a fundo e perceber que, no fim das contas, a experiência psicodélica é a coisa mais normal que poderia acontecer em sua vida – pois normal é a infinitude multidimensional revelada pela experiência psicodélica, e radical é a maneira com que o ser humano passa a vida inteira se esforçando em fechar os olhos a essa realidade.

Timothy Leary e Terence McKenna
Timothy Leary e Terence McKenna: dois precursores, para não dizer heróis, da educação psicodélica na civilização ocidental.

Uma meta para o século XXI

A partir da educação da sociedade sobre a normalidade da atividade psicodélica, ou seja, da popularização desta atividade como algo tão natural quanto quaisquer outros fatores fisiológicos, tais como o sono e a alimentação, poder-se-á desfrutar do pleno potencial dos psicodélicos como ferramentas formadoras de coesão e equilíbrio – não apenas individual, mas social. A difusão desta postura deve iniciar-se na própria comunidade psicodélica, através do estímulo a uma imersão mais profunda nesta prática, com a finalidade de abandonar a absurda perspectiva da mesma como algo radical.

A meta é que, ainda neste século, se popularize a noção de que, se quem passa a vida consumindo essas substâncias em dosagens medíocres é “maluco”, quem o faz em dosagens plenas, ainda que uma única vez na vida, é absolutamente normal – tal qual se observou desde sempre em sociedades de cunho xamânico.

Num dia sem nada pra fazer, o que você tem a perder?

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