Psicoativos e EnteógenosTurismo Psicodélico

O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Um trabalho de utilidade pública

Elaborado com o intuito de auxiliar o psiconauta brasileiro, amador ou experiente, em sua busca pela sabedoria universal, segue um guia simplificado para a obtenção de substâncias enteógenas no território nacional, com base em quase duas décadas de andanças psicodélicas e jornadas xamânicas. Vale lembrar que enteógenos são essencialmente ferramentas de desenvolvimento cognitivo e expansão da consciência. Sua utilização com um propósito supostamente recreacional dificilmente atravessará a “peneira da desilusão”…

Psilocybe cubensis – o clássico cogumelo-mágico, ou cogumelo-rei, ou simplesmente cogu, é encontrado em praticamente todo o país (talvez à única exceção de florestas densas e sertões extremamente áridos), sendo sua presença condicionada à atividade pecuária e ao clima quente e úmido. Basta uma pequena pesquisa na internet para aprender a identificá-lo corretamente, sendo suas mais notáveis características o desenvolvimento praticamente exclusivo em esterco bovino, o anel preto e o azulamento consequente à escoriação. Assim, a melhor maneira de buscá-lo é caminhando por pastagens em dias ensolarados trás dias chuvosos. De qualquer forma, muita gente no Brasil se dedica ao aprimoramento de técnicas de incubação, havendo vários entusiastas urbanos do cultivo deste enteógeno, além da possibilidade de adquiri-lo pela internet.

Ayahuasca – num panorama internacional, trata-se da planta de poder mais característica do país, sendo a dimetiltriptamina (DMT) o princípio ativo responsável por seus efeitos enteógenos. Também se conhece como daime, vegetal, hoasca e yagé, além de muitos nomes de origem indígena. Ainda que seu preparo e obtenção in loco (originalmente exclusivo à região amazônica) seja um mistério para a maioria dos leigos, há várias igrejas que utilizam esta bebida como sacramento ritual, sendo as mais conhecidas o Santo Daime e a União do Vegetal, ambas amplamente presentes em todos os Estados e no Distrito Federal. Há muitos outros contextos de utilização da ayahuasca no Brasil, tais como tribos indígenas no Acre e no Amazonas, retiros terapêuticos em praias e chapadas, grupos independentes no meio urbano e diversas comunidades alternativas na zona rural. A maioria dessas organizações é facilmente encontrada e contatada pela internet. Imagino que a evolução da regulamentação legal da ayahuasca, estendendo seus limites para além do contexto tradicional, possa alavancar a importância do país e da própria atividade psicodélica no cenário mundial. (ver o artigo O Brasil e a revolução psicodélica do século XXI)

O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Amanita muscaria – este belo cogumelo de fácil identificação (chapéu vermelho com pontos brancos) deve ser buscado nos extensos bosques de coníferas (pinheiros) de toda a região Sul do país e no sul do Estado de São Paulo, nos meses mais frios do ano (maior incidência de junho a agosto). Assim como o Psilocybe cubensis, o melhor momento para procurá-lo é em dias ensolarados sequentes a um período chuvoso. Atenção para a secagem adequada… Pesquise e esteja bem-informado antes do consumo.

Peiote e San Pedro – estes cactos enteógenos são utilizados no Brasil em cerimônias do Caminho Vermelho, ou seja, em atividades xamânicas cujas raízes remontam a tradições nativas da América do Norte, também referidas como Igreja do Fogo Sagrado de Itzachilatlan. Grupos que seguem estas tradições são bem mais presentes na região Sul do país e no Estado de São Paulo (apesar de haverem alguns poucos em outras regiões), sendo tais medicinas (abuelito peiote, abuelito san pedro, abuelita ayahuasca…) apenas uma das sete tradições do Caminho Vermelho. Nenhum desses cactos ocorre naturalmente no país, sendo trazidos até aqui exclusivamente para esses trabalhos de evolução pessoal.

Jurema – de composição química (DMT) similar à chacrona (ou rainha, uma das plantas que compõem a ayahuasca), a jurema é ocasionalmente utilizada em rituais de algumas tribos indígenas nordestinas e também em tradições de matiz africana, tais como o Catimbó e algumas linhagens umbandistas e daimistas. A planta com cuja casca de raiz se prepara a bebida (Mimosa hostilis, ou jurema-preta) é endêmica da caatinga nordestina, e seu uso foi até recentemente alvo de perseguição religiosa.

Argyreia nervosa, Rivea corymbosa e Ipomoea violacea – nenhuma destas trepadeiras com sementes ricas em LSA é nativa do Brasil, apesar de suas variedades meramente ornamentais (não-psicoativas) serem muito presentes em nossas lojas de jardinagem. Contudo, por não serem legalmente restritas na maioria dos países (inclusive no Brasil), é muito fácil adquirir essas sementes enteógenas pela internet. Atenção para comprar as estirpes adequadas (ou seja, efetivamente enteógenas, pois nem toda variedade de Ipomoea violacea e Argyreia nervosa é psicoativa), ou você não terá nada mais que um novo atrativo para o seu jardim.

O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Ibogaína – aqui faço referência à substância ibogaína, e não à planta iboga propriamente dita, pelo fato desta última não ser nem incidente no território nacional, nem importada a este lado do Atlântico. A ibogaína sintética, contudo, é utilizada em algumas clínicas de reabilitação para o tratamento de vícios pesados, com altíssimas taxas de sucesso. Não há, até onde eu saiba, outra forma de acesso a esta substância no país. Inclusive já ouvi falar que o preço cobrado pela terapia com ibogaína pode ser tão caro no Brasil, que sairia mais em conta fazer uma viagem à Guiné Equatorial ou ao Gabão para tomar iboga in loco. Assim, o tratamento da dependência química com ayahuasca é uma alternativa eficaz e muito mais viável a nível nacional.

Kambô – apesar de muitas pessoas a um princípio não sentirem efeitos mentais significativos, apenas purificação física, classifico por experiência própria o kambô (veneno da rã Phyllomedusa bicolor) como um enteógeno, o que talvez não se mostre tão evidente num primeiro contato com a substância. O emprego dessa medicina é bem difundido no interior do Amazonas, sendo que ela é ocasionalmente trazida para outras regiões do país (especialmente no contexto de grupos de raízes amazônicas, como o Santo Daime) por indivíduos que detêm os conhecimentos de seu uso. Não confundir com o veneno do sapo Bufo alvarius, este sim de efeito inequivocamente psicodélico, mas que não figura nesta lista por não ser natural do Brasil e tampouco jamais haver sido trazido até aqui (ao menos não enquanto o itinerante Dr. Octavio Rettig não visitar o país – http://octaviorettig.com).

Paricá e Virola – estes dois rapés (pó de origem vegetal para uso por inalação) são tradicionalmente utilizados entre tribos indígenas que habitam o noroeste da floresta amazônica, com propósitos divinatórios. Ambos possuem DMT, apesar de serem provenientes de árvores diferentes e possuírem particularidades químicas distintas. O Paricá se obtém das sementes do Angico, árvore presente em grande parte do território brasileiro, enquanto a Virola é obtida da resina que escorre da casca de uma árvore exclusiva da selva amazônica.

Observações:

  • Psicoativos da família dos anticolinérgicos – tais como a trombeta (Brugmansia suaveolens), amplamente presente em todo o território nacional – não foram incluídos por serem melhor classificados como “delirantes”, embora apresentem certos aspectos enteógenos;
  • A maconha tampouco deve ser considerada um enteógeno; (ver os artigos O maior dentre os benefícios da maconha e Por que você deveria gostar mais de enteógenos que de maconha).
  • A Salvia divinorum (nativa do México, mas muito difundida por todo o planeta no início do século) foi proibida no país em 2012. Após essa data, há muitos relatos de encomendas de sites internacionais com destino ao Brasil sendo apreendidas, causando prejuízo aos compradores. Portanto, não foi incluída na lista; (ver o artigo Os psicodélicos fumáveis e uma bela teoria da conspiração)
  • Não foram mencionados enteógenos sintéticos obtidos exclusivamente de laboratórios clandestinos ou no mercado negro (LSD, por exemplo), dada sua ilegalidade e a grande dificuldade em encontrar tais substâncias com relativo grau de pureza.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

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