Psicoativos e Enteógenos

O Brasil e a revolução psicodélica do século XXI

Uma perspectiva da possível relevância nacional numa mudança de paradigmas a nível planetário

O Brasil é um país de importância estratégica na política internacional. Isso se dá por conta de seu extenso território, pleno de riquezas naturais – notadamente sua abundância hídrica, mineral e biológica – além de seu enorme mercado consumidor e sua proeminência no setor agropecuário (o que, como bem se sabe, representa uma grave ameaça aos ecossistemas nacionais). Dentro da grande biodiversidade brasileira, há um aspecto que até o presente é apenas visto como mera curiosidade: a notável profusão de substâncias psicodélicas/enteógenas endêmicas, rivalizando com países como o México e o Peru. Não é de se admirar que, paralelamente a este fato, exista em nossa cultura uma considerável variedade de tradições ritualísticas que fazem uso das mesmas.

Considerando ditas tradições, podemos identificar uma peculiaridade nacional no que diz respeito à aceitação legal dessas práticas: o uso sacramental regulamentado. Este cenário é muito distante do ideal, no qual o ser humano seria protagonista de seu próprio corpo e consciência, tendo liberdade para explorar as possibilidades enteógenas/psicodélicas da maneira que melhor lhe aprouvesse (o que me parece nada menos que um direito universal óbvio). Ainda assim, é interessante notar que, neste tema específico, o Brasil (assim como os citados México e Peru) se mantém, em detrimento de suas instituições absolutamente retrógradas, ao nível de alguns países de vanguarda social (tais como Áustria, Portugal e Holanda), nos quais o uso e preparo de ao menos uma substância psicodélica amplamente conhecida não fere ao código penal. No caso do Brasil, logicamente me refiro à ayahuasca.

O que faz com que o Brasil se destaque entre esses países é o fato de esta prática, além de possuir um considerável histórico de aceitação, contar com uma grande quantidade de pessoas envolvidas. O único problema está na superação de sua limitação ao contexto religioso. A própria ideia de que se trata de algo ligado à religião já acarreta uma série de preconceitos – afinal, o último lugar que você associaria com abertura da mente seria uma igreja, não é verdade? Isso acaba fazendo com que a maior parte das pessoas perca o interesse no contato com o enteógeno.

Assim mesmo, um pequeno ajuste legal nesta questão, abrindo a possibilidade, por exemplo, do uso prescricional direcionado ao tratamento da depressão e do alcoolismo, poderia alavancar o país a uma participação muitíssimo mais incisiva na discussão que, pessoalmente, vejo como a mais importante deste século: os psicodélicos são imprescindíveis para que a humanidade supere seus atuais problemas? Se são (e eu, assim como uma boa parte da comunidade científica, aposto todas minhas fichas nisso), então por que ainda os tratamos como uma tendência radical (ou até mesmo um perigo mortal)?

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

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