Psicoativos e Enteógenos

LSD: o mais famoso dos psicodélicos, hoje um sem-teto

“Algumas coisas levam anos anos anos até que encontrem sua solução adequada… E eu estou convencido de que o LSD vai encontrar o lugar que ele necessita na cultura humana.”
Albert Hofmann, descobridor do LSD.

Havendo passado seus anos de glória em meados do século XX, quando residia em consultórios terapêuticos da elite acadêmica e se consolidava como um elemento de enorme potencial para a cultura e a ciência, o LSD (ou ácido lisérgico) popularizou-se a tal ponto que acabou batendo de frente com as autoridades. Como todos sabem, estas logo fizeram exatamente o que costumam fazer com aquilo que não compreendem: o proibiram.

Considerando que o uso de diversas substâncias psicodélicas foi legalizado no âmbito de práticas espirituais de raízes tribais/indígenas/aborígenes, então o que exatamente faz com que o LSD ainda seja banido como um veneno mortal? Seria pelo entendimento por parte das autoridades de que, de tão grande sua importância para a humanidade, os psicodélicos devem ser rigorosamente sacralizados?

Logicamente não, infelizmente. A resposta àquela pergunta é bem mais “tosca”, como veremos a seguir…

O ácido lisérgico é famoso, prescinde rituais e é tão prático e simples que qualquer um pode utilizá-lo. Em outras palavras, ele é “plug and play” – não requer que o indivíduo vá buscá-lo no pasto, no deserto, na floresta ou numa igreja, nem que tenha que imergir em outra cultura ou aprender a fazer uma preparação. Tudo o que se necessita é um fornecedor, assim como os produtos da Coca-Cola ou da Nestlé.

Comparemos-lo ao peiote e à ayahuasca. Todos os três são substâncias absolutamente psicodélicas, mas o peiote é oficialmente permitido para o uso dos membros da Native American Church, nos EUA, tal qual a ayahuasca o é para membros de igrejas como o Santo Daime, no Brasil. Conclui-se que as autoridades se sentem confortáveis mantendo a utilização dessas substâncias restrita a microcosmos folclóricos. Isso se dá pela clara razão de que, dentro dos limites do uso estritamente étnico/ritual, é possível tratar esta prática como um fenômeno controlado – eis o real motivo da proibição do LSD em detrimento de alguns outros psicodélicos.

LSD... um sem-teto

Olhando por um ângulo caricatural, os psicodélicos de uso oficialmente tolerado são os “primos pobres” do LSD. São permitidos por serem “índios”, e dessa forma não representam uma ameaça à ordem cultural e social “civilizada” (também conhecida como establishment). Assim, enquanto estes ao menos têm direito a uma oca de palha (ou a um tipi de pele de búfalo, ou a uma igrejinha de madeira, etc.), aquele acabou ficando na rua mesmo. O LSD já estava demasiadamente infiltrado no establishment para que o deixassem permanecer por lá, lhe dessem uma casa e acenassem a ele quando estivesse passando. Já era ameaçador demais para que pudessem olhá-lo nos olhos. Tiveram que expulsá-lo, degredá-lo… Um triste fim para um septuagenário cujo único crime foi ampliar os horizontes da classe média ocidental. Talvez seja ele a maior de todas as vítimas da cultura de massas.

Hoje em dia o vemos zanzando por aí, escasso e diluído entre compostos anfetamínicos, transitando pelo mercado negro. Quem antes o conhecia, atualmente mal o reconhece. Costuma andar em festas, festivais, réveillons e carnavais, onde muitas vezes até mesmo se
fazem passar por ele (como o tal do NBOMe). E de pensar que já houve um tempo em que foi reverenciado – não como uma “brisa”, mas como um portal ao infinito.

Inspirado por seu grupo de admiradores fiéis, o ácido lisérgico segue sua jornada: um bom tiozinho sem-teto, perseguido pelas autoridades e ignorado pela sociedade – em uma palavra, injustiçado. Porém, jamais será esquecido… Quem sabe um belo dia ainda lhe daremos um bom lar, se possível na farmácia.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

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