Psicoativos e Enteógenos

Cartilha de Medição Psicodélica

Uma proposta de autoavaliação dos efeitos resultantes do uso de psicodélicos

A ideia aqui foi mapear a atividade psicodélica numa forma em que qualquer psiconauta possa facilmente identificar suas experiências. Trata-se de uma definição conceitual das diferentes etapas de ampliação sensorial através do uso de psicodélicos/enteógenos – uma escala o mais realista possível, resultado dos relatos de centenas de indivíduos e da observação do próprio autor.

Os quatro estágios descritos a seguir seguem uma ordem crescente de intensidade. Não serão mencionadas dosagens de substâncias específicas, pois são fatores que variam de pessoa para pessoa – e até mesmo porque outras circunstâncias (como por exemplo o ambiente) também são determinantes para a profundidade de uma experiência psicodélica. Note-se ainda que não se trata de uma medida referente à evolução do usuário, mas à experiência em si.

NÍVEL 4

Há uma abertura da mente a entendimentos não tão distantes daquilo que se poderia elaborar no cotidiano. A consciência segue atrelada ao ego, apesar de ser um momento mais introspectivo e propenso a pensamentos transcendentes. Também os sentidos se alteram, fazendo com que o indivíduo tenha uma experiência sensorial notavelmente distinta da vivência cotidiana. A empatia (compreensão e conexão ao próximo) é amplificada. Por não proporcionar efeitos além deste nível, a classificação da maconha como um psicodélico é um assunto controverso.

NÍVEL 3

Neste nível, a mente divaga num plano criativo e perspectivo inteiramente diverso ao da vida diária. Os insights são frequentes, ou seja, o sujeito tem ideias e compreensões às quais não haveria chegado fora da via psicodélica. O plano sensorial, em especial o visual, é amplamente transformado, sendo muitas vezes diretamente influenciado pelos pensamentos e pelo subconsciente (aqui origina-se a estética característica da chamada “arte psicodélica” ou “arte visionária”). O ego já não se mantém intacto, havendo momentos (frequentemente assustadores) de autoconfrontação, regularmente seguidos da resolução de desequilíbrios entre consciente e subconsciente (tais como traumas, vícios, fobias, etc.) – eis o tão mencionado caráter terapêutico dos psicodélicos. É comum recordar-se de eventos da primeira infância e refletir sobre pessoas e acontecimentos habitualmente ignorados. Há uma maior conexão com tudo ao redor, sendo frequente a sensação de comunicar-se com animais ou até mesmo com plantas e objetos.

NÍVEL 2

Nesta etapa, ocorre um completo encontro entre o consciente e o subconsciente. O indivíduo passa a observar todas as coisas, materiais ou imateriais, em sua essência. Nada aqui está sujeito ao ego: este se submete à infinitude existencial (o que não raro consiste numa experiência absolutamente aterrorizante), dissolvendo-se para posteriormente se reconstruir de maneira condizente ao entendimento absorvido no curso da experiência. Nenhuma forma de ideologia sobrevive a este “furacão”. A ampla transformação dos sentidos leva à sinestesia e a uma indescritível profusão de cores e formas geométricas. Muitas pessoas dizem recordar-se da vida intrauterina. Regularmente se faz referência a este tipo de experiência como “êxtase transcendental”, dada a sensação de unidade com o universo e tudo o que nele existe. Após uma experiência dessas, a maneira da pessoa ver a vida jamais será a mesma. Além disso, a partir deste nível são comuns os relatos de contato com formas de inteligência extradimensionais.

NÍVEL 1

A explicação de uma experiência psicodélica de primeiro nível é rápida e ao mesmo tempo incompreensível para quem não tenha passado por ela. Se trata de um evento mais significativo do que o próprio nascimento, além de ser o mais instrutivo (e possivelmente o mais difícil) desde então. É como se tudo o que já foi vivido fosse um mero detalhe em comparação à experiência. Em outras palavras, já não é tal evento que é apenas uma parte da vida… A vida é que é apenas uma parte de tal evento. Para psiconautas experientes, descrevo este estágio como a absoluta dissolução de ilusões conceituais relativas a tempo, espaço, matéria e existência.

 

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