Psicoativos e Enteógenos

Uma discussão sobre a controversa combinação de psicodélicos com a prática budista

Artigo discute o uso de psicodélicos como ferramentas para a prática budista e também traz as críticas a respeito dessa combinação

Quando se fala em budismo logo vem a mente os 5 preceitos que os praticantes devem seguir, sendo que um deles é abster-se de qualquer tipo de intoxicantes. Logo de cara parece então ser incompatível o uso de psicodélicos quando você é um budista. Sim, muitos praticantes podem ver o uso de enteógenos como uma forma de quebrar a sila (moralidade, em pali), porém outros enxergam a possibilidade de experimentar psicodélicos como uma ferramenta para fortalecimento da prática budista. O artigo publicado originalmente no Tricycle.org discute o uso de psicodélicos dentro do contexto budista e aqui trago alguns pontos principais dessa discussão.

Um belo dia uma meditadora experiente estava imersa em um retiro de silêncio do qual percebeu que sentar em silêncio em um ambiente calmo e tranquilo não era suficiente para sua mente acalmar, e  ao contrário do que era esperado, estava gerando ainda mais tensões internas. Os ensinamentos budistas não eram os culpados e sim a própria prática da meditadora. Foi então que após essa experiência ela resolveu unir sua prática budista com uma vivência enteogênica por meio da bebida amazônica Ayahuasca.

Segundo o artigo, o interesse budista pelos psicodélicos existe há muito tempo, principalmente por conta dos praticantes ocidentais e pesquisadores com a temática budista e psicodélicos. O artigo científico Buddhism and Psychedelic Spirituality in America (Budismo e espiritualidade psicodélica na América, em tradução livre), ensaios sobre a combinação do uso de psicodélicos com o budismo e livros sobre o assunto impulsionam a discussão polêmica sobre o uso de intoxicantes psicodélicos e o budismo.

Um estudo de Carhart-Harris descobriu que o uso de LSD e psilocibina tornou a rede de modo padrão mais silenciosa e os níveis de consumo de oxigênio e fluxo sanguíneo foram reduzidos. Nesse sentido, houve uma perda de identidade. Para o budismo a perda de identidade, do não-eu, também chamado de Anatta se desenvolve ao longo da prática e é algo que muitos usuários de substâncias psicodélicas relatam durante suas experiências.

budismo e psicodelia
Por Bekir Donmez

Alguns budistas defendem que o uso de psicodélicos alinhados com a prática budista pode contribuir para treinar a mente a testemunhar sua falta de altruísmo, enquanto outros defendem de forma ferrenha que o uso de psicodélicos vai na contramão dos ensinamentos budistas, já que para observar a mente não é necessário usar nenhum tipo de “veículo mental”. Uma crítica interessante é que praticantes budistas se apegam a experiências maravilhosas durante o transe psicodélico (e não só eles) “sob o o disfarce de exploração espiritual”. O uso de psicodélicos é a busca por coisas que não estão ali no momento presente e que “mudar as cores, texturas e sabores da prisão não nos leva à liberdade”, afirma Jesse Maceo Vega-Frey.

O apego sem dúvida vai contra tudo que o Buda ensinou e experiências psicodélicas nos levam a estados de deleite pelas sensações provocadas, o que pode gerar um risco para a prática, já que sob efeito de psicodélicos às vezes entramos em estados do qual não temos controle algum sobre o que se passa, correndo o risco de entrar em estados de apego e aversão ao que estamos sentindo inconscientemente, então nesse aspecto há um grande perigo para a prática meditativa e o estado da mente como o todo.

Por fim, praticantes budistas admitem a controvérsia do tema no mundo budista e que há sim perigos atribuídos ao uso de psicodélicos com a prática budista, mas ao mesmo tempo diz que psicodélicos podem ser aceleradores espirituais e que podem reduzir o vício de intoxicantes. Uma das praticantes, inclusive, já realizou cerimônias de ayahuasca no Peru combinada com os ensinamentos budistas e houve um grande número de praticantes budistas que foram atraídos para viver a experiência. Para Washan a experiência da ayahuasca é um tipo de”meditação final” que pode melhorar a prática budista e fornecer insights pessoais sobre a interconectividade global.

Para ler na íntegra clique aqui.

 

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