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LSD: o mais famoso dos psicodélicos, hoje um sem-teto

“Algumas coisas levam anos anos anos até que encontrem sua solução adequada… E eu estou convencido de que o LSD vai encontrar o lugar que ele necessita na cultura humana.”
Albert Hofmann, descobridor do LSD.

Havendo passado seus anos de glória em meados do século XX, quando residia em consultórios terapêuticos da elite acadêmica e se consolidava como um elemento de enorme potencial para a cultura e a ciência, o LSD (ou ácido lisérgico) popularizou-se a tal ponto que acabou batendo de frente com as autoridades. Como todos sabem, estas logo fizeram exatamente o que costumam fazer com aquilo que não compreendem: o proibiram.

Considerando que o uso de diversas substâncias psicodélicas foi legalizado no âmbito de práticas espirituais de raízes tribais/indígenas/aborígenes, então o que exatamente faz com que o LSD ainda seja banido como um veneno mortal? Seria pelo entendimento por parte das autoridades de que, de tão grande sua importância para a humanidade, os psicodélicos devem ser rigorosamente sacralizados?

Logicamente não, infelizmente. A resposta àquela pergunta é bem mais “tosca”, como veremos a seguir…

O ácido lisérgico é famoso, prescinde rituais e é tão prático e simples que qualquer um pode utilizá-lo. Em outras palavras, ele é “plug and play” – não requer que o indivíduo vá buscá-lo no pasto, no deserto, na floresta ou numa igreja, nem que tenha que imergir em outra cultura ou aprender a fazer uma preparação. Tudo o que se necessita é um fornecedor, assim como os produtos da Coca-Cola ou da Nestlé.

Comparemos-lo ao peiote e à ayahuasca. Todos os três são substâncias absolutamente psicodélicas, mas o peiote é oficialmente permitido para o uso dos membros da Native American Church, nos EUA, tal qual a ayahuasca o é para membros de igrejas como o Santo Daime, no Brasil. Conclui-se que as autoridades se sentem confortáveis mantendo a utilização dessas substâncias restrita a microcosmos folclóricos. Isso se dá pela clara razão de que, dentro dos limites do uso estritamente étnico/ritual, é possível tratar esta prática como um fenômeno controlado – eis o real motivo da proibição do LSD em detrimento de alguns outros psicodélicos.

LSD... um sem-teto

Olhando por um ângulo caricatural, os psicodélicos de uso oficialmente tolerado são os “primos pobres” do LSD. São permitidos por serem “índios”, e dessa forma não representam uma ameaça à ordem cultural e social “civilizada” (também conhecida como establishment). Assim, enquanto estes ao menos têm direito a uma oca de palha (ou a um tipi de pele de búfalo, ou a uma igrejinha de madeira, etc.), aquele acabou ficando na rua mesmo. O LSD já estava demasiadamente infiltrado no establishment para que o deixassem permanecer por lá, lhe dessem uma casa e acenassem a ele quando estivesse passando. Já era ameaçador demais para que pudessem olhá-lo nos olhos. Tiveram que expulsá-lo, degredá-lo… Um triste fim para um septuagenário cujo único crime foi ampliar os horizontes da classe média ocidental. Talvez seja ele a maior de todas as vítimas da cultura de massas.

Hoje em dia o vemos zanzando por aí, escasso e diluído entre compostos anfetamínicos, transitando pelo mercado negro. Quem antes o conhecia, atualmente mal o reconhece. Costuma andar em festas, festivais, réveillons e carnavais, onde muitas vezes até mesmo se
fazem passar por ele (como o tal do NBOMe). E de pensar que já houve um tempo em que foi reverenciado – não como uma “brisa”, mas como um portal ao infinito.

Inspirado por seu grupo de admiradores fiéis, o ácido lisérgico segue sua jornada: um bom tiozinho sem-teto, perseguido pelas autoridades e ignorado pela sociedade – em uma palavra, injustiçado. Porém, jamais será esquecido… Quem sabe um belo dia ainda lhe daremos um bom lar, se possível na farmácia.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

A verdade sobre o mito das bad trips – revendo conceitos

Neste artigo, tenho a pretensão de fazer com que se repense a terminologia “bad trip” e se reflita a respeito do papel da experiência psicodélica em nossa cultura. Já vou logo esclarecendo que, em minha perspectiva pessoal, não existem bad trips… O que talvez existam são bad trippers.

Podemos começar lembrando que a expressão popular bad trip (como você já sabe, “viagem ruim” em inglês) tem sua origem na cultura ocidental da segunda metade do século XX. Aqui devemos observar que se trata de um modelo cultural onde um dos aspectos mais valorizados é o conforto. Glorifica-se o conforto no trabalho, nos ambientes, nos momentos de lazer, etc. É certo que o ser humano busca maior conforto em sua vida diária desde a pré-história, mas nunca obteve os meios para adquiri-lo de forma tão acelerada quanto nos últimos cinquenta anos.

Ok, mas o que as bad trips tem a ver com isso?

O que ocorre é que, uma vez plenamente inserido neste contexto cultural, o ser humano tem a expectativa de que todos os aspectos de sua vida sigam a mesma lógica (o conforto progressivo) – inclusive sua relação com as drogas. A tendência é que algo que fuja a este padrão seja visto como “mau” ou “ruim”.

Deveríamos sempre partir do princípio universal de que a experiência psicodélica é uma forma de aprendizado (um aprendizado muito amplo e profundo, diga-se de passagem). Dessa forma, não podemos esperar que todas as etapas deste aprendizado sejam necessariamente fáceis. Na verdade, muitas vezes as lições mais difíceis são as mais importantes.

A própria expressão bad trip já carrega a ideia de negatividade, algo como uma experiência “ruim”. Certamente, afrontar os próprios medos, viajar por outras realidades e romper com os limites culturais que impõem ao indivíduo uma suposta “normalidade” são aspectos recorrentes (ou mesmo incontornáveis) da atividade psicodélica, nem sempre consistindo em experiências suaves e confortáveis. Isso não faz deste tipo de experiência algo ruim – isso apenas significa que não é fácil… De fato, pode ser algo indescritivelmente assustador.

A verdade sobre o mito das bad trips

Assim, se uma viagem psicodélica fosse vista antes de tudo como aprendizado, poder-se-iam apreciar os momentos mais conturbados deste mergulho existencial/dimensional com certa naturalidade. Por esse exato motivo, num contexto xamânico nunca se fala em bad trips nem nada desse estilo. No caso, tem-se a plena consciência de que este evento levará o indivíduo a uma (possivelmente árdua) jornada rumo ao infinito – o que resultará no seu amadurecimento como ser humano, ou seja, no autoconhecimento. Conclui-se que, quando alguém diz que teve uma bad trip, o que ocorreu foi simplesmente que a pessoa se assombrou com a abertura da mente e cedeu ao medo e à insegurança, o que por sua vez é uma fase natural da evolução individual através da atividade psicodélica.

Para finalizar com uma boa metáfora, em se tratando de psicodélicos, ninguém deveria navegar no alto-mar na estação de chuvas somente pensando em ver golfinhos. Em outras palavras, não se pode tomar meio miligrama de LSD ou meio litro de ayahuasca e esperar que será apenas um passeio colorido. Quando o horizonte escurecer e surgir uma enorme tempestade, não é certo reclamar da viagem. Não é a viagem que é “ruim”… É o viajante que não conhece ou não respeita o mar.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

Drogas são como livros

Drogas são como livros… Houve um tempo em que muitos livros eram proibidos, pelo simples fato de não serem aceitos ou compreendidos pelas autoridades de sua época (pensou na igreja medieval?). Hoje, tal como antigamente, os livros aceitos pela sociedade são os mais chatos, bobos e sem sentido. Hoje se bebe álcool e se proíbe LSD, no passado se liam sermões e se proibia Galileu.

Drogas são como livros… Eu vejo a cannabis como gibis. Fáceis de ler, bons para descontrair e para passar o tempo, gosto bastante deles. Porém, há muitos e muitos anos não leio um gibizinho sequer. Talvez porque pense neles como algo para quem está aprendendo a ler, ou simplesmente pela mesma razão pela qual nunca mais joguei videogame (apesar de pensar que jogaria para sempre, quando era adolescente). Ainda assim, sempre fico contente em ver (ou sentir o cheiro de) alguém lendo um Chico Bento, por exemplo. Ler um gibi não resolve a vida de ninguém, mas ao menos significa que a pessoa não tem medo de ler… Já é alguma coisa. 

Drogas são como livros… O que realmente me interessa? Esses livrões enormes, de cientistas e filósofos como Nietzsche e outros de nomes ainda mais difíceis, chamados psicodélicos ou enteógenos. Longos, difíceis de ler e entender, literatura pesada, não fazem muito sucesso com o público em geral – apenas poucos indivíduos buscadores de conhecimento leem mais do que umas poucas páginas ou umas poucas obras. Contudo, uma coisa é certa: diferentemente de um gibi, ao ler um livrão desses você expandirá sua visão da realidade, alargará os horizontes de sua mente e verá a si mesmo com outros olhos. 

Psicodelia

Drogas são como livros… E o que dizer de ópio, cocaína, metanfetaminas, etc.? Revistas pornô, talvez. Tal como a punheta, pode até ser divertido e prazeroso no princípio, mas com o tempo se torna algo vicioso, um prazer incompleto, algo que mais frustra do que satisfaz… Além do âmbito experimental, não acrescenta muito à vida – de fato, geralmente subtrai. Proibi-las, porém, nem pensar… Eis o absurdo primordial. Afinal, somos ou não somos os senhores de nossas mentes e nossos corpos, igualmente responsáveis pelos mesmos? Se o trânsito mata mais do que a maioria das guerras, um Estado tão preocupado com o bem-estar de seus cidadãos proibiria, em primeiríssimo lugar, os carros. Sim: o uso irresponsável de automóveis mata muito – muitíssimo – mais que o uso irresponsável de drogas. Aliás, não seria nada mal viver num país simultaneamente bike-friendly e drug-friendly, onde carros particulares sejam ilegais. Parece até cenário dessas séries do Netflix, uma utopia hipster pós-apocalipse ambiental ou algo assim.

Drogas são como livros… Qual é a diferença entre os dois? Uma só: livros foram escritos por pessoas, numa linguagem humana. Drogas foram escritas pela matriz criadora da natureza e do universo, numa linguagem natural e universal. Não por acaso, através delas nos vemos frente à frente com essa força, entidade ou seja lá como queira chamar. Ouvimos o que ela tem a dizer. Nos embasbacamos com sua grandiosidade e sabedoria.

Psicodelia

Drogas são como livros… Não tenho nem um pingo de vergonha – e sim orgulho – em dizer que sou um tiozinho não apenas alfabetizado, mas absolutamente letrado, que pode conversar desde Platão e Descartes até Jorge Amado, ainda que ultimamente eu não tenha muito saco para ler um livrão. O que eu hoje realmente gostaria é que as pessoas lessem mais, adquirissem cultura, aprendessem mais sobre si próprias e sobre o universo e com isso respeitassem a vida e a natureza… Enfim, que fossem civilizadas. Assim, certamente, teriam coisas bem mais interessantes pra conversar do que política, fofoca e esporte.

Apesar de não haverem sido a salvação da humanidade, os livros com certeza ajudaram um bocado. Continuemos emergindo da Idade Média… Ao invés de propagar o preconceito analfabeto de vê-las como perda de tempo (ou algo pior), dê uma chance às drogas.

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A indústria cultural, a atividade psicodélica e o Capitão América

A atualidade é uma era de veneração a estímulos audiovisuais. A crescente complexidade funcional e praticidade operacional de dispositivos móveis, somados à internet ultrarrápida, levaram a relação do ser humano com a tecnologia a um outro nível. Se há cem anos o campo de batalha e de conciliação cultural eram os livros, hoje este espaço pertence às mídias digitais. Tendo em vista que a experiência psicodélica proporciona uma inegável amplificação da percepção da realidade e superação de limitações psicológicas, conforme se vem observando pelo ir e vir dos séculos, cabe indagar por que essas mídias pouco contribuem para a difusão da cultura psicodélica e para o fim do preconceito relacionado a essa prática.

Já reparou como os produtos culturais de maior sucesso parecem haver sido feitos para crianças (ainda que o público-alvo seja majoritariamente composto por adultos jovens)? É o que se pode deduzir de filmes cuja trama seja protagonizada por super-heróis. A infantilização das relações de poder pelas indústrias midiáticas de nosso tempo (no caso, a cinematográfica) leva à infantilização da maneira com que o público em geral pensa esse tipo de tema. Esta infantilização não é uma imposição da mídia… O próprio público, em sua grande maioria, está tomado pelo desejo de ser infantilizado. Em outras palavras, o produto cultural é apenas resultado das aspirações populares, e não da intrincada estratégia de uma suposta elite dedicada a conspirar pela alienação das massas, como muitos imaginam. As próprias massas buscam (ou necessitam) alienar-se, sendo que a indústria de entretenimento (música pop, Hollywood, videogames, etc.) apenas lhes fornece o que vende melhor. 

Qual seria o motivo das massas buscarem a alienação? Difícil de explicar… Talvez seja algo atrelado à própria vocação do ser humano em fechar os olhos à realidade. Certamente, algo muito parecido ao motivo pelo qual o álcool e a maconha são os psicoativos de preferência na sociedade em que vivemos, e não os cogumelos e a ayahuasca.

Finalmente, por falar em cogumelos e ayahuasca, eis o grande “antídoto desinfantilizador” da mente humana: a experiência psicodélica. Queira ou não, ao passar pelo renascimento psicodélico (algo desencadeado, por exemplo, pela ingestão de uma dúzia de cogumelos psilocibínicos maduros frescos), sua visão sobre a vida, a sociedade e a cultura irá amadurecer. Eis a razão pela qual os psicoativos não-psicodélicos são muito mais populares que seus congêneres psicodélicos: o ser humano não quer amadurecer e nem ver a realidade. 

Considerando isso tudo, está explicado porque, ao se falar em Capitão América, logo vem à mente o personagem da Marvel (e as bilheterias multimilionárias da série Os Vingadores), e não o veículo homônimo do excelente filme Easy Rider (“Sem Destino”, 1969). De um lado, um ícone da alienação juvenil, empunhando o escudo do politicamente correto. Do outro, um motoqueiro hippie defensor da verdadeira liberdade, desmascarando as hipocrisias da sociedade conservadora. Um representando a América do Tio Sam, o outro a América de Timothy Leary… Os únicos pontos em comum entre os personagens: a referência à patente de capitão, a indumentária estadunidense ao extremo e o bom caráter.

A indústria cultural, a atividade psicodélica e o Capitão América
O super-herói Capitão América da Marvel (Chris Evans) e a moto Capitão América do hippie Wyatt (Peter Fonda). Se apenas a figura da esquerda lhe é familiar, é porque a cultura pop é preferencialmente infantil e superficial.

Link para o filme Easy Rider dublado no youtube (a qualidade deixa a desejar… Infelizmente, o filme não está disponível no idioma original). Provavelmente, esta bela obra ganhará algum revival nostálgico no ano que vem, por conta de seu aniversário de 50 anos.

Link para a música Ezy Ryder no spotify (Jimi Hendrix, 1969, inspirada no filme).

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Cumpra seu papel na restauração da identidade psicodélica

Ainda que a grande maioria dos adeptos da prática psicodélica não se importem com isso, todos sabem que, se falassem abertamente sobre o assunto, correriam o risco de carregar o estigma social de loucos, drogados ou vagabundos. Neste artigo, pretendo demonstrar como você pode (e deve) agir para reverter esta absurda lógica cultural. Não será necessário nenhum esforço além de um pequeno ajuste de atitude, o que por sua vez se resume em 3 pontos:

1 – NÃO EXISTEM ALUCINÓGENOS

Se você considera alucinações o que ocorre com a mente sob a influência de substâncias como LSD, DMT, psilocibina ou mescalina, então você certamente não conhece tais substâncias. Pessoalmente, considero um verdadeiro “pecado” quando vejo uma pessoa utilizando a palavra “alucinógeno”, considerando que seus efeitos conduzem à expansão sensorial, à reflexão existencial e ao autoconhecimento. Na verdade, trata-se exatamente do contrário do que a palavra “alucinógeno” implica. Esta denominação apenas reforça o tipo de preconceito que alimenta a ridícula política contra as drogas.

Portanto, não dê razão ao inimigo… Por gentileza: “psicodélicos” – ou ainda, se você achar mais bonitinho, “enteógenos”.

2 – FIQUE BEM-INFORMADO SOBRE A ATIVIDADE PSICODÉLICA

É certo que, de um modo geral, as pessoas atualmente não se sentem muito atraídas pela leitura. Na era das redes sociais, poucos se animam para ler um pequeno texto, quanto mais um livro inteiro. De fato, provavelmente você preferiria estar vendo um meme divertido ao invés de estar lendo este artigo (e nem posso criticar, pois eu também não sou diferente). Ainda assim, mesmo havendo centenas de autores e milhares de livros sobre o assunto, se você ler uma única obra já estará elevando seu nível discursivo, podendo “fazer bonito” ao falar sobre o tema num contexto formal. Entre os autores mais conhecidos, temos Timothy Leary, os irmãos McKenna, Aldous Huxley, Albert Hofmann, Stanislav Grof, Jonathan Ott e muitos outros. Quem já passou por uma boa viagem psicodélica sempre se identifica com o trabalho desses estudiosos.

3 – PRATIQUE A PSICODELIA COM A MENTE ABERTA

Os psicodélicos não são atrações turísticas para que você poste selfies, ao lado deles ou sob seus efeitos, em redes sociais. Trata-se de um linha de conhecimento que, cedo ou tarde, apresentar-lhe-á muitas verdades sobre sua própria existência. Lidar com tal atividade de maneira banal certamente levará à insegurança na hora de mergulhar nas águas mais profundas da psicodelia – que é onde se escondem seus maiores tesouros.

A experiência psicodélica é uma dádiva… Respeite-a como tal e beba sem medo desta inesgotável fonte de sabedoria.

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O verdadeiro motivo da proibição da maconha

Hoje, tanto pela mídia alternativa quanto pela grande mídia, somos constantemente bombardeados por matérias que expõem os benefícios medicinais e terapêuticos da cannabis. De fato, desde os tempos mais obscuros da propaganda de proibição (na metade do século passado) nunca houve qualquer estudo sério que delimitasse cientificamente um risco considerável decorrente do uso desta planta. O motivo é muito simples: não há nenhum risco relevante.

Não havendo um caráter nocivo, o porquê da proibição aparenta ser uma mera formalidade legal, relativamente obsoleta. Na realidade, porém, ela consiste numa importante engrenagem na máquina de poder, e muito atual… Algo que a maioria das pessoas não lê nas entrelinhas.

Através da proibição, o Estado muito sutilmente reitera que os corpos dos cidadãos lhe pertencem. Note que, fundamentalmente, quase todo governo se baseia no poder militar/policial, seja de forma implícita (ao exemplo do Brasil) ou explícita (ao exemplo dos países do Oriente Médio, da Rússia e dos EUA). As poucas exceções se encontram, na maior parte, na Europa. Isso significa que, por baixo de uma roupagem de fomento à modernização, de integração transnacional, de desenvolvimento social e de promoção dos direitos individuais, a maioria dos países do mundo contemporâneo continuam seguindo a diretriz de preservação da autoridade institucional – o que se faz através da imposição da força.

A recente descriminalização da maconha em muitos estados norte-americanos não foge a essa lógica… Na verdade, até contribui para sua explicação. Por se tratar de um país de poderio externo (militar) e interno (policial) indiscutivelmente consolidados (ao contrário do Brasil), os EUA não necessitam de determinados instrumentos de controle (tais como a proibição da maconha ou do porte de armas de fogo) para reforçar sua soberania, podendo “dar-se ao luxo” de estar na vanguarda democrática em alguns assuntos que não afetam diretamente a segurança nacional.

O verdadeiro motivo da proibição da maconha
Os EUA, que até pouco tempo atrás protagonizaram uma incansável cruzada contra a erva, hoje têm a venda da cannabis legalizada em seus Estados mais populosos e economicamente importantes. Mas, afinal, qual é a lógica por trás desse jogo?

Basta recordarmos que, tal qual a proibição da maconha o é hoje, a censura dos meios de comunicação também já foi uma impopular ferramenta de afirmação da autoridade – sendo também descartada pelo governo norte-americano bem antes que pelo brasileiro. Nesse quadro, a soberania nacional se resguarda por meio do militarismo, que por sua vez faz do indivíduo um meio, não um fim, resumido-o a um “corpo” a serviço do Estado. Por outro lado, países europeus como a Holanda (que oficialmente descriminalizou a venda de pequenas quantidades e o uso pessoal da cannabis em 1976) apresentam desde o período pós-guerra uma peculiar orientação política na qual, inversamente ao militarismo predominante, o indivíduo é o fim, não o meio. Nesse caso, a soberania nacional emana principalmente dos valores civilizacionais (no plano interno) e da relevância econômica e diplomática (no plano externo), não havendo nenhuma prioridade na manutenção do potencial repressor do Estado quando não há uma lógica que o justifique. A legalização da maconha no Uruguai segue esta linha, mas representa antes uma ousada abertura política do que o resultado de uma longa tradição liberal.

Para resumir, se compararmos o país a uma unidade familiar tradicional e o uso da cannabis a um hábito basicamente inócuo, mas conservadoramente reprovável (como sentar-se com os pés sobre a mesa, por exemplo), chegaremos a uma metáfora que simplifica a situação: seu pai (o Estado) não o proíbe de fazê-lo (plantar, armazenar, vender e usar) porque ele acha isso prejudicial pra você (o cidadão) ou pra família (a sociedade). Embora ele finja ser este o motivo, ele sabe muito bem que isso não gera nenhum malefício real. Ele o proíbe porque, por ser um cara desequilibrado e inseguro, ele precisa estar sempre deixando claro que é o dono da casa e que, por essa razão, tem legitimidade para agir de forma opressora (sua soberania emana da manutenção da autoridade, e não da proteção à liberdade individual).

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O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Elaborado com o intuito de auxiliar o psiconauta brasileiro, amador ou experiente, em sua busca pela sabedoria universal, segue um guia simplificado para a obtenção de substâncias enteógenas no território nacional, com base em quase duas décadas de andanças psicodélicas e jornadas xamânicas. Vale lembrar que enteógenos são essencialmente ferramentas de desenvolvimento cognitivo e expansão da consciência. Sua utilização com um propósito supostamente recreacional dificilmente atravessará a “peneira da desilusão”…

Psilocybe cubensis – o clássico cogumelo-mágico, ou cogumelo-rei, ou simplesmente cogu, é encontrado em praticamente todo o país (talvez à única exceção de florestas densas e sertões extremamente áridos), sendo sua presença condicionada à atividade pecuária e ao clima quente e úmido. Basta uma pequena pesquisa na internet para aprender a identificá-lo corretamente, sendo suas mais notáveis características o desenvolvimento praticamente exclusivo em esterco bovino, o anel preto e o azulamento consequente à escoriação. Assim, a melhor maneira de buscá-lo é caminhando por pastagens em dias ensolarados trás dias chuvosos. De qualquer forma, muita gente no Brasil se dedica ao aprimoramento de técnicas de incubação, havendo vários entusiastas urbanos do cultivo deste enteógeno, além da possibilidade de adquiri-lo pela internet.

Ayahuasca – num panorama internacional, trata-se da planta de poder mais característica do país, sendo a dimetiltriptamina (DMT) o princípio ativo responsável por seus efeitos enteógenos. Também se conhece como daime, vegetal, hoasca e yagé, além de muitos nomes de origem indígena. Ainda que seu preparo e obtenção in loco (originalmente exclusivo à região amazônica) seja um mistério para a maioria dos leigos, há várias igrejas que utilizam esta bebida como sacramento ritual, sendo as mais conhecidas o Santo Daime e a União do Vegetal, ambas amplamente presentes em todos os Estados e no Distrito Federal. Há muitos outros contextos de utilização da ayahuasca no Brasil, tais como tribos indígenas no Acre e no Amazonas, retiros terapêuticos em praias e chapadas, grupos independentes no meio urbano e diversas comunidades alternativas na zona rural. A maioria dessas organizações é facilmente encontrada e contatada pela internet. Imagino que a evolução da regulamentação legal da ayahuasca, estendendo seus limites para além do contexto tradicional, possa alavancar a importância do país e da própria atividade psicodélica no cenário mundial. (ver o artigo O Brasil e a revolução psicodélica do século XXI)

O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Amanita muscaria – este belo cogumelo de fácil identificação (chapéu vermelho com pontos brancos) deve ser buscado nos extensos bosques de coníferas (pinheiros) de toda a região Sul do país e no sul do Estado de São Paulo, nos meses mais frios do ano (maior incidência de junho a agosto). Assim como o Psilocybe cubensis, o melhor momento para procurá-lo é em dias ensolarados sequentes a um período chuvoso. Atenção para a secagem adequada… Pesquise e esteja bem-informado antes do consumo.

Peiote e San Pedro – estes cactos enteógenos são utilizados no Brasil em cerimônias do Caminho Vermelho, ou seja, em atividades xamânicas cujas raízes remontam a tradições nativas da América do Norte, também referidas como Igreja do Fogo Sagrado de Itzachilatlan. Grupos que seguem estas tradições são bem mais presentes na região Sul do país e no Estado de São Paulo (apesar de haverem alguns poucos em outras regiões), sendo tais medicinas (abuelito peiote, abuelito san pedro, abuelita ayahuasca…) apenas uma das sete tradições do Caminho Vermelho. Nenhum desses cactos ocorre naturalmente no país, sendo trazidos até aqui exclusivamente para esses trabalhos de evolução pessoal.

Jurema – de composição química (DMT) similar à chacrona (ou rainha, uma das plantas que compõem a ayahuasca), a jurema é ocasionalmente utilizada em rituais de algumas tribos indígenas nordestinas e também em tradições de matiz africana, tais como o Catimbó e algumas linhagens umbandistas e daimistas. A planta com cuja casca de raiz se prepara a bebida (Mimosa hostilis, ou jurema-preta) é endêmica da caatinga nordestina, e seu uso foi até recentemente alvo de perseguição religiosa.

Argyreia nervosa, Rivea corymbosa e Ipomoea violacea – nenhuma destas trepadeiras com sementes ricas em LSA é nativa do Brasil, apesar de suas variedades meramente ornamentais (não-psicoativas) serem muito presentes em nossas lojas de jardinagem. Contudo, por não serem legalmente restritas na maioria dos países (inclusive no Brasil), é muito fácil adquirir essas sementes enteógenas pela internet. Atenção para comprar as estirpes adequadas (ou seja, efetivamente enteógenas, pois nem toda variedade de Ipomoea violacea e Argyreia nervosa é psicoativa), ou você não terá nada mais que um novo atrativo para o seu jardim.

O pequeno guia para a localização de enteógenos no Brasil

Ibogaína – aqui faço referência à substância ibogaína, e não à planta iboga propriamente dita, pelo fato desta última não ser nem incidente no território nacional, nem importada a este lado do Atlântico. A ibogaína sintética, contudo, é utilizada em algumas clínicas de reabilitação para o tratamento de vícios pesados, com altíssimas taxas de sucesso. Não há, até onde eu saiba, outra forma de acesso a esta substância no país. Inclusive já ouvi falar que o preço cobrado pela terapia com ibogaína pode ser tão caro no Brasil, que sairia mais em conta fazer uma viagem à Guiné Equatorial ou ao Gabão para tomar iboga in loco. Assim, o tratamento da dependência química com ayahuasca é uma alternativa eficaz e muito mais viável a nível nacional.

Kambô – apesar de muitas pessoas a um princípio não sentirem efeitos mentais significativos, apenas purificação física, classifico por experiência própria o kambô (veneno da rã Phyllomedusa bicolor) como um enteógeno, o que talvez não se mostre tão evidente num primeiro contato com a substância. O emprego dessa medicina é bem difundido no interior do Amazonas, sendo que ela é ocasionalmente trazida para outras regiões do país (especialmente no contexto de grupos de raízes amazônicas, como o Santo Daime) por indivíduos que detêm os conhecimentos de seu uso. Não confundir com o veneno do sapo Bufo alvarius, este sim de efeito inequivocamente psicodélico, mas que não figura nesta lista por não ser natural do Brasil e tampouco jamais haver sido trazido até aqui (ao menos não enquanto o itinerante Dr. Octavio Rettig não visitar o país – http://octaviorettig.com).

Paricá e Virola – estes dois rapés (pó de origem vegetal para uso por inalação) são tradicionalmente utilizados entre tribos indígenas que habitam o noroeste da floresta amazônica, com propósitos divinatórios. Ambos possuem DMT, apesar de serem provenientes de árvores diferentes e possuírem particularidades químicas distintas. O Paricá se obtém das sementes do Angico, árvore presente em grande parte do território brasileiro, enquanto a Virola é obtida da resina que escorre da casca de uma árvore exclusiva da selva amazônica.

Observações:

  • Psicoativos da família dos anticolinérgicos – tais como a trombeta (Brugmansia suaveolens), amplamente presente em todo o território nacional – não foram incluídos por serem melhor classificados como “delirantes”, embora apresentem certos aspectos enteógenos;
  • A maconha tampouco deve ser considerada um enteógeno; (ver os artigos O maior dentre os benefícios da maconha e Por que você deveria gostar mais de enteógenos que de maconha).
  • A Salvia divinorum (nativa do México, mas muito difundida por todo o planeta no início do século) foi proibida no país em 2012. Após essa data, há muitos relatos de encomendas de sites internacionais com destino ao Brasil sendo apreendidas, causando prejuízo aos compradores. Portanto, não foi incluída na lista; (ver o artigo Os psicodélicos fumáveis e uma bela teoria da conspiração)
  • Não foram mencionados enteógenos sintéticos obtidos exclusivamente de laboratórios clandestinos ou no mercado negro (LSD, por exemplo), dada sua ilegalidade e a grande dificuldade em encontrar tais substâncias com relativo grau de pureza.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

Dedique 10 minutos a esta leitura para entender o xamanismo de uma vez por todas

Com o intuito de explicar o conceito de xamanismo numa maneira facilmente compreensível a qualquer leigo, é mais fácil começar contextualizado certos padrões próprios de nossa cultura – uma cultura sem nenhum traço xamânico, mas que vem “paquerando” o xamanismo desde o século passado, em especial depois do boom das experiências lisérgicas de expansão da consciência nos anos 60.

xamanismo
O crescente uso de substâncias enteógenas (como ayahuasca) na cultura ocidental vem gerando um progressivo interesse na prática xamânica…

Tomemos como primeiro exemplo o modelo religioso (seja lá qual for a religião). Nos sistemas de crenças religiosas, o conhecimento sobre a realidade supostamente se encontra em livros (a Bíblia cristã, o Alcorão islâmico, a Torá judaica, o Mahabharata hindu, o Tripitaka budista etc.). Assim, num panorama religioso o discernimento do que é verdadeiro ou falso independe do indivíduo, pois existe com ou sem ele… Já está tudo gravado em papel, papiro, argila ou e-book. Logo, o indivíduo não exerce qualquer influência sobre tal visão predeterminada da realidade. Em outras palavras, podem surgir mil teorias de que Jesus nunca existiu, ou que ele era uma mulher, ou um extraterrestre (ou qualquer outra coisa) e o livro que dá embasamento à religião (neste caso, a Bíblia) jamais mudará sequer uma vírgula por conta disso. De fato, tais livros levam séculos para passarem por mínimas mudanças, geralmente ocasionadas por erros de tradução.

Agora vejamos um exemplo com o qual temos mais familiaridade, por vivermos no mundo ocidental de vanguarda tecnológica: o modelo racional/científico. A um princípio, o conhecimento também independe do indivíduo. Por mais que você não goste da gravitação dos astros e prefira ver a Terra como um objeto plano, ninguém vai escrever um livro cientificamente reconhecido que corrobore esse seu ponto de vista. Portanto, o modelo científico se difere do religioso em dois pontos fundamentais… Um é que no âmbito científico tudo deve ser comprovado dentro de parâmetros lógicos. O outro é que eventualmente o conhecimento pode ser influenciado pelo indivíduo (vide Pitágoras, Einstein, Newton, Kepler, Hawking, etc.). Contudo, o indivíduo é na esmagadora maioria dos casos absolutamente irrelevante para o conhecimento em si, salvo que sua genialidade lógica/racional se imponha sobre o sistema científico já estabelecido.

Tendo em vista o exposto acima, fica bem mais fácil entender o conceito da prática xamânica (e também compreender porque se trata de algo tão alheio ao senso comum em nossa cultura). O modelo de conhecimento xamânico é absolutamente centrado no indivíduo. Não há livros fundamentais (e nem mesmo secundários), pois se houvessem, seria necessário um livro específico para cada pessoa. A prática xamânica diz respeito a uma maneira pragmática de se conectar com a sabedoria que emana do universo e de tudo o que nele existe. Assim, a natureza é o “livro” e o xamanismo é a sua “leitura”. Para aprender a “ler”, deve-se mergulhar em si mesmo, tal qual se mergulha na água para aprender a nadar. O xamã é um “nadador” experiente… Uma vez que você reconheça sua habilidade e sabedoria, ele pode até lhe dar bons conselhos, mas quem tem que nadar é você. Dessa maneira, diferentemente do pensamento religioso e do lógico/racional, na atividade xamânica você é o grande protagonista da “aventura sagrada” (e não Buda, Maomé, Krishna, Moisés ou Jesus) e você é o grande cientista (e não Galileu, Tesla ou Darwin). Logo, se você tiver medo de entrar na “água”, o xamanismo não terá nenhuma resposta para você. Nenhum criacionismo, nenhum evolucionismo e nem qualquer outra resposta pronta (tal qual proporcionam as religiões e as ciências). O xamanismo é osmótico… Nele, o conhecimento se absorve. Portanto, o conhecimento não se lê e nem se fala, o xamã apenas aponta onde se pode encontrá-lo – e esse caminho invariavelmente passa pela natureza e seus elementos, que nos permitem mergulhar em nós mesmos e desde aí “voar” em todas as direções.

xamanismo
Todas as vertentes da atividade xamânica se baseiam no autodescobrimento e na aprendizagem através de um contato mais profundo com a natureza, sendo os enteógenos (ou plantas de poder) suas principais ferramentas.

Com tudo isso, se você ainda pensa que xamanismo tem a ver com crenças em espíritos da natureza ou pajelanças, não poderia estar mais errado. Estes são mitos criados por nossa própria cultura, por esta representar uma mentalidade incapaz de abarcar o conceito de um conhecimento que parte de dentro para fora – em oposição ao conhecimento que jaz inerte em livros, em palavras e em equações. Convivi por muitos anos com xamãs de notável fama no Peru e, pessoalmente, nunca vi nenhum acreditar em nada além de sua própria capacidade de aprender. 

Por fim, se tudo isso ainda lhe parece um tanto obscuro, é porque não se pode buscar do lado de fora algo que só se encontra dentro de si mesmo. Quanto à essa busca interior, dificilmente se consegue mergulhar nas profundezas da própria consciência sem um empurrãozinho… E é por isso que a prática xamânica sempre foi essencialmente vinculada ao uso de plantas psicodélicas/enteógenas.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

O FAQ básico da educação psicodélica – parte 2

(Para ler a primeira parte, clique neste link)

A experiência psicodélica é divertida?

Não. Este é um mito propagado pelo fato de que algumas substâncias (tais como a cannabis) frequentemente proporcionam experiências divertidas e prazerosas. Como nossa cultura prefere ignorar um conhecimento mais amplo sobre este tema, estabelece-se uma linha erroneamente tênue entre os psicodélicos propriamente ditos e outras classes de psicoativos. Assim, muitas vezes se cria um contexto social que direciona o indivíduo à falsa expectativa de que a experiência psicodélica seja recreativa. Por exemplo: ser golpeado brutalmente não é agradável sob nenhum ponto de vista, mas o MMA é um esporte muito cativante. De maneira similar, por si só a experiência psicodélica não é divertida, mas acaba sendo culturalmente condicionada para tal. Este fenômeno pertence exclusivamente ao mundo contemporâneo, dado que não há qualquer registro histórico anterior ao século XX do uso supostamente recreativo de substâncias psicodélicas (cogumelos, peiote, iboga, ayahuasca etc.).

Então por que todos parecem estar se divertindo horrores nessas raves e festivais psicodélicos?

Primeiro, porque geralmente utilizam doses consideravelmente aquém do necessário para uma experiência efetivamente psicodélica. Segundo, porque quando a mente de uma pessoa desse círculo cultural de fato ingressa a um plano psicodélico (o que costuma ser subjetivamente muito assustador), classifica-se este tipo de experiência como uma “bad trip”, por pura falta de conhecimento. Não existem bad trips… O que existem são pessoas que não têm a menor ideia da função da atividade psicodélica. Esta função é aproximar o indivíduo à realidade, e não afastá-lo da mesma.

O FAQ básico da educação psicodélica – parte 2
Não obstante a natureza relativística da experiência psicodélica, é fato que a sua associação com o lazer pertence apenas a nossa cultura. Por quê?

E por que isso não pode ser divertido?

Porque o plano psicodélico conduz à consciência da absoluta fragilidade humana frente à natureza em estado bruto. Quando se está diante das portas do infinito (e qualquer definição menos superlativa não condiz com uma experiência psicodélica de fato), dramaticamente despido de qualquer ilusão egocêntrica, o próprio conceito de diversão se dissolve na profundidade avassaladora da experiência. Em outras palavras, ela tem tanta graça quanto passar um ano sozinho numa ilha deserta (e é igualmente instrutiva).

Usando psicodélicos, eu corro o risco de virar um fanático de alguma religião ou filosofia?

Ao ser aberta a uma perspectiva muito mais ampla e profunda, a sua mente vai buscar ancorar-se na forma mais factível em que possa definir a realidade – o que, em muitos casos, está relacionado a conceitos religiosos e filosóficos (tais como “divino”, “místico”, “espiritual” etc.). Em última instância, contudo, a complexidade da revelação psicodélica é algo que faz com que conceitos linguísticos se mostrem insuficientes e até mesmo irrelevantes. Portanto, o apego a doutrinas, pontos de vista estáticos e ideologias é incompatível com a atividade psicodélica.

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O Brasil e a revolução psicodélica do século XXI

O Brasil é um país de importância estratégica na política internacional. Isso se dá por conta de seu extenso território, pleno de riquezas naturais – notadamente sua abundância hídrica, mineral e biológica – além de seu enorme mercado consumidor e sua proeminência no setor agropecuário (o que, como bem se sabe, representa uma grave ameaça aos ecossistemas nacionais). Dentro da grande biodiversidade brasileira, há um aspecto que até o presente é apenas visto como mera curiosidade: a notável profusão de substâncias psicodélicas/enteógenas endêmicas, rivalizando com países como o México e o Peru. Não é de se admirar que, paralelamente a este fato, exista em nossa cultura uma considerável variedade de tradições ritualísticas que fazem uso das mesmas.

Considerando ditas tradições, podemos identificar uma peculiaridade nacional no que diz respeito à aceitação legal dessas práticas: o uso sacramental regulamentado. Este cenário é muito distante do ideal, no qual o ser humano seria protagonista de seu próprio corpo e consciência, tendo liberdade para explorar as possibilidades enteógenas/psicodélicas da maneira que melhor lhe aprouvesse (o que me parece nada menos que um direito universal óbvio). Ainda assim, é interessante notar que, neste tema específico, o Brasil (assim como os citados México e Peru) se mantém, em detrimento de suas instituições absolutamente retrógradas, ao nível de alguns países de vanguarda social (tais como Áustria, Portugal e Holanda), nos quais o uso e preparo de ao menos uma substância psicodélica amplamente conhecida não fere ao código penal. No caso do Brasil, logicamente me refiro à ayahuasca.

O que faz com que o Brasil se destaque entre esses países é o fato de esta prática, além de possuir um considerável histórico de aceitação, contar com uma grande quantidade de pessoas envolvidas. O único problema está na superação de sua limitação ao contexto religioso. A própria ideia de que se trata de algo ligado à religião já acarreta uma série de preconceitos – afinal, o último lugar que você associaria com abertura da mente seria uma igreja, não é verdade? Isso acaba fazendo com que a maior parte das pessoas perca o interesse no contato com o enteógeno.

Assim mesmo, um pequeno ajuste legal nesta questão, abrindo a possibilidade, por exemplo, do uso prescricional direcionado ao tratamento da depressão e do alcoolismo, poderia alavancar o país a uma participação muitíssimo mais incisiva na discussão que, pessoalmente, vejo como a mais importante deste século: os psicodélicos são imprescindíveis para que a humanidade supere seus atuais problemas? Se são (e eu, assim como uma boa parte da comunidade científica, aposto todas minhas fichas nisso), então por que ainda os tratamos como uma tendência radical (ou até mesmo um perigo mortal)?

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O FAQ básico da educação psicodélica – parte 1

A seguir, algumas perguntas simples e frequentes a respeito da atividade psicodélica (o uso de substâncias como psilocibina, mescalina, DMT e LSD), seguidas por respostas suficientemente simples ao entendimento de qualquer leigo…

Essas substâncias psicodélicas causam alucinações?

Não, este é um velho mito que passa muito distante da realidade. Para entender isso, há de se levar em conta que elas costumam levar a experiências assustadoras, uma vez que, dadas suas propriedades neuroquímicas, trazem à consciência muito daquilo que jaz oculto no subconsciente. Considerando que é uma reação frequente do ser humano descartar e ignorar aquilo que ele tem medo ou não pode compreender facilmente, daí a classificação de seus efeitos como meras alucinações. Tratar tais substâncias como alucinógenos é bem semelhante a tratar telescópios como bruxaria (o que de fato se fazia até mais ou menos o século XVII).

Então por que muitas dessas substâncias são proibidas?

Porque quando você começa a dizer abertamente que usa substâncias psicodélicas, não são apenas seus pais que não sabem como lidar com essa situação… Também o Estado não sabe como lidar com isso. Seus pais, assim como o Estado, querem (mais do que isso, necessitam) entender exatamente tudo o que você faz – e a atividade psicodélica é algo que simplesmente não se pode compreender do lado de fora, ou seja, da perspectiva de um mero espectador. Muitos pais são inseguros e autoritários, e mais ainda o são os Estados, pois estes últimos se baseiam, quase que invariavelmente, em princípios sociais patriarcais, belicosos e obcecados por controle e soberania. Daí a paranoia da proibição.

educação psicodélica
Essas perguntas são bem comuns entre os leigos no assunto. Se lhe perguntassem, você saberia respondê-las de uma maneira adequada?

O que se aprende com o uso dessas substâncias?

Como elas são catalisadoras de processos de superação e expansão da própria consciência, perguntar isso é quase o mesmo que perguntar “o que se aprende com dez anos de vida?”… Não se pode colocar numa caixa algo muito maior do que ela – neste caso, a caixa é a linguagem através da qual essa pergunta é formulada e através da qual ela pretende ser respondida, e o conteúdo da experiência é uma resposta que jamais caberá nela.

A grosso modo, apenas para dar um “aperitivo”, com a prática psicodélica progressivamente se percebe, entre muitas outras coisas, a natureza fluída da consciência e da realidade, o que conduz a uma mentalidade mais aberta a novas formas de conhecimento, a uma visão mais equilibrada das relações interpessoais, a um sentimento mais profundo de conexão com a natureza e a uma maior plenitude no viver.   

Então a educação psicodélica significa que todas as pessoas deveriam usar essas substâncias, da mesma maneira que todos devem ir à escola?

A educação psicodélica diz respeito ao entendimento coletivo e institucional de que esta atividade é algo absolutamente normal, sem riscos e de grande potencial terapêutico e de desenvolvimento psicológico. Por exemplo, você não precisa viver no campo para aceitar que existam pessoas que preferem viver lá, que essa opção deve ser respeitada e que seu potencial como um estilo de vida mais  tranquilo e equilibrado deve ser reconhecido. Em outras palavras, o uso de psicodélicos deveria ser tratado com a mesma naturalidade que viver no campo – nisso consiste a educação psicodélica. Seria absurdo proibir, ter preconceito ou mesmo criticar alguém pelo simples fato de preferir morar no campo, não é verdade? Tampouco faria sentido obrigar alguém a morar no campo.

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10 bons motivos para se autoconhecer através da prática psicodélica

Para quem nunca teve oportunidade de fazê-lo (e também para quem já teve), seguem 10 razões pelas quais você deveria buscar um aprendizado psicodélico – ou seja, um aprendizado no qual o professor não é uma pessoa, nem um livro e nem nada do estilo, mas uma substância psicodélica. Estes fatores não se resumem ao momento da experiência em si, mas se estendem por toda a vida do indivíduo. Logicamente, a maioria dos benefícios listados abaixo não se aplica ao uso microdosado ou insuficiente…

  1. Apesar de ser uma vivência muito profunda, não acarreta nenhum risco ao corpo (ao menos quando se tratam de psicodélicos naturais) nem à saúde mental (psicodélicos conduzem a um contato mais intenso com a realidade, e não a alucinações, como tentaram lhe ensinar na escola);
  1. A experiência psicodélica se traduz num estado de êxtase que pode ser descrito como uma espécie de “redenção”, fazendo-lhe sentir que pode recomeçar a viver de acordo com o que você realmente deseja para si;
  1. Você passará a dar mais valor às coisas que realmente importam (como as amizades verdadeiras, a liberdade e até mesmo o ar que respira) e a deixar de lado o que é supérfluo (como as aparências, os luxos e as frescuras);
  1. Você poderá analisar a vida com uma serenidade que, de outra forma, apenas lhe seria possível com uma idade bem mais avançada;
  1. Você passará a ser menos egocêntrico, mas ao mesmo tempo terá mais respeito por si mesmo e, logicamente, pela natureza;
  1. Você dará uma importância cada vez menor às formalidades culturais e maior às verdadeiras virtudes;
  1. Você pouco a pouco começará a enxergar primeiro a essência, e só depois os detalhes das pessoas e das coisas;
  1. Você ficará orgulhoso de si mesmo por não se haver limitado às convenções sociais e por haver enfrentado seus medos;
  1. Você progressivamente buscará ocupar mais o seu tempo com as coisas que realmente gosta e que realmente acha importantes;
  1. Você conhecerá coisas que nem em seus sonhos mais ousados imaginou existirem.

E uma única razão para você ficar com um pé atrás…

  1. Você vai se assustar, e muito. Se não se assustar, então não foi uma experiência psicodélica… Tente uma dose mais adequada.

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Os Dois Vilões da Educação Psicodélica

Com este título, pode parecer que o artigo irá tratar de temas como a proibição de psicodélicos e a sua difamação por ignorantes ou conservadores. Contudo, o que se abordará aqui são obstáculos bem mais sutis à evolução da cultura psicodélica, os quais dificultam o entendimento geral da importância dessas substâncias. São eles:

1 – O uso de psicodélicos em dosagens insuficientes 

Este fato, apesar de a um princípio parecer limitar-se ao âmbito individual, na realidade representa um grande desserviço à cultura psicodélica como um todo. À exceção de pessoas completamente leigas e desinformadas, todos sabem que experiências psicodélicas levam a um entendimento mais profundo sobre a vida e a natureza, que não representam nenhum risco à saúde e que há muito o que se aprender com elas. No entanto, o que mais se vê hoje em dia são legiões de pessoas que, frente à “piscina psicodélica”, apenas colocam os pés na água, com medo de entrar e se afogar. Seria bem mais proveitoso um único mergulho profundo, do qual todos voltariam sãos e salvos, do que passarem a vida inteira apenas sentados na beira da piscina, ocupando espaço. 

Compare a força cultural da identidade psicodélica dos anos 60 com o presente cenário e leve em consideração que a dose mediana de uma unidade de LSD era, naquela época, aproximadamente dez vezes superior à atual, segundo análises laboratoriais. Não é uma coincidência. Apenas com dosagens ínfimas (como as da atualidade) é possível levar na brincadeira algo tão importante quanto a atividade psicodélica – e quando algo é levado a sério por muita gente, sua relevância cultural é uma consequência inevitável.

2 – A visão da prática psicodélica como algo radical, ousado ou que traspassa limites

Isto é um efeito direto do ponto abordado acima, pois consiste justamente numa atitude resultante do uso de psicodélicos em dosagens insuficientes. Perceba que são as mesmas pessoas que utilizam essas substâncias em quantidades tímidas que costumam referir-se como “malucos”, além de relatar que, trás o seu uso, “fritaram”, “ficaram muito loucos”, entre outras bobagens. Para quem passou pela efetiva transformação psicodélica, não há nada de radical nessa atividade… Ela consiste numa natural e necessária reconfiguração existencial, com o propósito de levar uma vida mais plena e equilibrada e despertar a percepção da realidade tal como é. 

Ao invés de falar sobre a prática psicodélica como algo de outro mundo (ainda que de fato o seja), mistificando tal atividade, é muito mais interessante explorar essa verdade mais a fundo e perceber que, no fim das contas, a experiência psicodélica é a coisa mais normal que poderia acontecer em sua vida – pois normal é a infinitude multidimensional revelada pela experiência psicodélica, e radical é a maneira com que o ser humano passa a vida inteira se esforçando em fechar os olhos a essa realidade.

Timothy Leary e Terence McKenna
Timothy Leary e Terence McKenna: dois precursores, para não dizer heróis, da educação psicodélica na civilização ocidental.

Uma meta para o século XXI

A partir da educação da sociedade sobre a normalidade da atividade psicodélica, ou seja, da popularização desta atividade como algo tão natural quanto quaisquer outros fatores fisiológicos, tais como o sono e a alimentação, poder-se-á desfrutar do pleno potencial dos psicodélicos como ferramentas formadoras de coesão e equilíbrio – não apenas individual, mas social. A difusão desta postura deve iniciar-se na própria comunidade psicodélica, através do estímulo a uma imersão mais profunda nesta prática, com a finalidade de abandonar a absurda perspectiva da mesma como algo radical.

A meta é que, ainda neste século, se popularize a noção de que, se quem passa a vida consumindo essas substâncias em dosagens medíocres é “maluco”, quem o faz em dosagens plenas, ainda que uma única vez na vida, é absolutamente normal – tal qual se observou desde sempre em sociedades de cunho xamânico.

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As 7 principais desculpas esfarrapadas para evitar experiências psicodélicas

Sempre haverão desculpas para não ingressar no foguete rumo ao autoconhecimento e à realidade sem máscaras – também conhecido como “experiência psicodélica”. Porém, vale a pena desmistificar as mais esfarrapadas, já que, curiosamente, também são as mais comuns…

1 – “Isso é ilegal”

Não necessariamente. Cogumelos dos gêneros Psilocybe ou Amanita, Ayahuasca, certos cactos, sementes de determinadas trepadeiras etc. não são ilegais no Brasil – e, pessoalmente, os considero muitíssimo superiores a qualquer coisa fabricada em laboratório. Além do mais, mesmo no que diz respeito a substâncias proibidas, se você alguma vez ultrapassou o limite de velocidade, comprou um DVD pirata no camelô ou experimentou bebida alcoólica antes dos 18, então seu compromisso moral com a legislação não passa de uma fantasia de carnaval.

2 – “Isso deve deixar sequelas”

Realmente, há uma sequela irreversível: uma vez aberta, a mente perde a capacidade de se fechar. É algo similar ao fato de que não se pode mais voltar a acreditar no Papai Noel, uma vez que se descobre que ele não existe. Quanto à saúde física e neurológica, se eu fosse você, estaria bem mais preocupado com produtos industrializados que consome, com hábitos tecnológicos que cultiva, com dormir mal, com estresse e com depressão, ou seja, justamente com todas as coisas que a prática psicodélica trata e previne.

3 – “Isso pode viciar”

É impressionante que se desconheça tanto o universo psicodélico, a ponto de pensar ser possível o vício nessas substâncias. Se você conhece alguém que apresenta um comportamento compulsivo em relação a elas, pode ter certeza que essa pessoa não as utiliza em doses plenamente psicodélicas (e quando o faz, muitas vezes é pela primeira e última vez). Só há duas maneiras de se conseguir manter uma frequência regular com os psicodélicos: levando-os muito a sério ou utilizando-os em dosagens bem “covardes”.

4 – “Tenho medo de sair de meu estado normal de consciência”

Até lhe entendo, mas você só diz isso porque ainda não descobriu que o tal “estado normal de consciência” é apenas um conceito próprio de sua cultura, e que não possui uma relação objetiva com a realidade.

viagem psicodélica

5 – “Isso vai prejudicar minha imagem”

O que as outras pessoas pensam de você não faz a menor diferença depois de uma experiência psicodélica. Aliás, na minha opinião, essa é uma das consequências mais importantes da prática psicodélica: ser o que você espera de si mesmo, e não o que os outros esperam de você. Por fim, quanto mais você se identifica com uma mera imagem social, mais urgentemente está precisando de uma experiência psicodélica!

6 – “Eu prefiro coisas mais tranquilas, como a meditação”

Teoricamente, essa frase não consiste numa desculpa. Na prática, contudo, ela quase sempre tem o medo como único fundamento. Neste caso, pode-se fazer uma comparação àquela pessoa que deseja ir ao último andar de um arranha- céu, mas tem medo de elevador… Ela acaba subindo pelas escadas e diz que é porque prefere subir andando mesmo.

7 – “Isso me parece uma atividade um pouco radical demais”

Isso é só uma imagem criada culturalmente. Muitas vezes, a culpa desta falsa imagem é das próprias pessoas já envolvidas nessa prática, pois acabam glamourizando-a para assim se sentirem especiais. No fim das contas, a atividade psicodélica deveria ser vista com a mesma naturalidade que a alimentação ou a reprodução, por exemplo.

Uma única desculpa razoável: “Isso é assustador”

Também acho, mas se você já sabe disso, é porque provavelmente já esteve lá.

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O Que Dizem Os Enteógenos

A natureza não é muda… homem é que é surdo. E a maneira de abrirmos nossos ouvidos é através dos psicodélicos” – Terence McKenna

Por mais bizarro que possa parecer, quanto mais se conhecem essas substâncias, mais se evidenciam suas próprias personalidades e inteligências – ainda que esta afirmação jamais possa ser compreendida e levada a sério num panorama cultural acadêmico e adverso ao despertar psicodélico (como o nosso). De qualquer forma, mesmo que a grande maioria das pessoas nunca venha a conhecer os enteógenos pessoalmente, elas também deveriam saber certas coisas que eles dizem, prontamente identificáveis por quem já possui familiaridade com os mesmos:

“Nós já estávamos aqui antes de vocês chegarem, e ainda estaremos depois que se forem”

“Nós temos mensagens importantes a lhes dar, mas bem poucos entre vocês parecem interessados em ouvir”

“Nós nos comunicamos através de um idioma universal: uma linguagem bioquímica/psicossomática mais eficaz do que todas as formas de comunicação que vocês já desenvolveram. Aqueles seus semelhantes que entendem um pouco dessa linguagem, a quem vocês geralmente se referem como xamãs, deveriam desempenhar um papel mais relevante em sua sociedade”

“Suas filosofias e ideologias de nada servem para nós, pois são todas baseadas numa linguagem primitiva, que não condiz com a realidade. Justamente por estarem limitados a esses padrões de pensamento, vocês não conseguem perceber que somos seres inteligentes, pois nossa inteligência se manifesta nos ciclos naturais de nossa existência, na nossa silenciosa adaptação a incontáveis eras terrestres e nas moléculas que utilizamos para nos comunicar com outras formas de vida”

“Assim como a sua linguagem, também a sua percepção tridimensional do espaço e a sua perspectiva linear do tempo são primitivas”

“O seu modelo civilizacional baseado no acúmulo de objetos e riquezas representa um dos seus maiores problemas como espécie”

“Apesar de vivermos na mesma casa – ou seja, o planeta Terra – nós, ao contrário de vocês, vivemos em equilíbrio com nosso lar. Aliás, desde o princípio buscamos instruí-los sobre como viver em equilíbrio, mas apenas poucos dentre vocês cumprem sua parte e deixam a comunicação fluir”

“Se sua civilização não começar a nos respeitar e a remover os bloqueios que vocês mesmos impuseram à nossa comunicação, depois poderá ser tarde demais”

“Nenhum de vocês possui a mente suficientemente evoluída para se comunicar conosco de igual para igual. Contudo, transmitimos estas mensagens de uma maneira tão clara, que qualquer mané que nos conheça pode entendê-las e transcrevê-las em sua linguagem primitiva, para assim compartilhar com seus semelhantes”

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A Superação da Lógica Materialista Através da Prática Psicodélica

Desde a explosão da contracultura dos anos 60, é amplamente reconhecido o caráter essencialmente anti-materialista da experiência psicodélica. O estereótipo do hippie economicamente despreocupado e “alérgico” a gravatas, protocolos e horários, dentre outras “caretices” do mundo profissional, já é uma parte integrante do folclore popular no que diz respeito ao uso dessas substâncias. De que maneira tais experiências resultam em desapego material? É o que veremos a seguir…

Sendo a sobrevivência o instinto mais primordial de todas as formas de vida, paralelamente à reprodução (que também consiste numa forma de sobrevivência, mas a nível genético), é natural que, ao menos na maior parte do tempo, a mente humana esteja focada em desenvolver suas condições de segurança. Para o homem pré-histórico, essa segurança consistia basicamente na obtenção de comida, na defesa contra inimigos e animais ferozes e na proteção às intempéries climáticas. Com a descoberta da agricultura, deu-se início à era do acúmulo de alimentos e da sedentarização que, por sua vez, possibilitou uma explosão populacional e cultural, dando o pontapé inicial à civilização tal qual a conhecemos hoje – ou seja, baseada na lógica de mercado e caracterizada pelo comportamento obsessivo quanto à aquisição de bens e riquezas.

Não foi até meados do século passado que a humanidade começou a dar-se conta do lado mais perverso do materialismo. Com o desenvolvimento científico, que levou à observação objetiva das transformações ambientais decorrentes da ação humana e ao consequente nascimento da ecologia, descobriu-se que o preço do acúmulo desenfreado era nada menos que a saúde do próprio planeta. Em suas vidas diárias, as pessoas continuam guiadas pelo mesmo instinto de sobrevivência que levou ao triunfo de nossa espécie sobre as ameaças naturais. Em outras palavras, vivemos sempre atrás de uma graninha, para dessa forma garantirmos um futuro mais seguro a nós mesmos e à nossa prole. Logo, vivemos pensando no futuro. Uma experiência psicodélica, porém, muda tudo…

A experiência psicodélica é uma radical reconexão com a realidade do presente. Nem uma fantasia, nem uma alucinação e nem qualquer outra coisa que os acadêmicos gostariam que fosse (para assim poderem ignorá-la mais veementemente), mas sim a extraordinária vivência do aqui e agora. Através desse tipo de experiência, redescobre-se o incrível que é o papel do ser humano como observador consciente da existência, além do aspecto absolutamente transcendental da mesma. Não há riqueza material que conduza a esse entendimento primordial e, portanto, não há riqueza material que seja mais importante do que isso.

experiẽncia psicodélica
A experiência psicodélica é o caminho mais rápido à percepção da origem transcendental da realidade e de sua infinitude… Não em outro mundo, não em outro momento, mas aqui e agora

Assim, é o caráter imediato da experiência psicodélica – arrebatando a consciência da superficialidade e conduzindo-a à indescritível e real profundidade e complexidade do agora – o que faz desta atividade uma maneira infalível de romper com os grilhões da cultura exageradamente materialista/acumuladora, que aprisiona a humanidade numa espiral de satisfação momentânea e autodestruição permanente. No universo psicodélico, o verbo “ser” se sobressai e ofusca o verbo “ter”. Em última instância, isso pode (e deve) ser visto como um antídoto ao consumismo desenfreado, que é a maior ameaça ao planeta Terra que já se teve notícia. Uma cura que não necessita qualquer revestimento ideológico, pois nasce no âmago da consciência de cada um.

Aparentemente, a maior controvérsia no que diz respeito à experiência psicodélica é essencialmente esta: ela realmente funciona. Cabe a nós, cujos olhos foram abertos à espetacular infinitude do presente, demonstrar ser esse o seu mérito, e não o seu problema.

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O Maior Dentre Os Benefícios Da Maconha

Ao se falar sobre os benefícios da cannabis, logo vêm à mente suas propriedades terapêuticas, sua utilidade medicinal, seu estímulo criativo ou até mesmo seu aspecto meramente recreativo. Contudo, neste artigo pretendo demonstrar que nenhuma dessas é a maior conveniência do uso da erva.

Frequentemente, as coisas mais importantes são as mais sutis e, portanto, costumam passar desapercebidas pela maior parte das pessoas. A isso acrescente-se o fato de que, ironicamente, o principal motivo pelo qual algo é criticado não raro consiste em sua maior qualidade. Assim, podemos citar sua professora da quinta série, seus parentes mais velhos e aquele seu coleguinha “caretão”, que categoricamente afirmaram que “o maior problema da maconha é que ela leva a drogas mais pesadas”.

Vamos dar uma analisada nesta frase…

Se por “drogas” entendemos estimulantes (como cocaína e anfetamina) e narcóticos (como opiáceos), por certo não é a maconha o psicotrópico que conduz a elas, mas sim o álcool. Em nossa civilização, é através do estímulo cultural ao consumo de álcool que se tem a primeira percepção de que alterar o estado de consciência pode ser algo prazeroso (e socialmente louvável). Não é necessário refletir muito para compreender que, mesmo que não existisse a cannabis, de qualquer forma as pessoas utilizariam aqueles entorpecentes, provavelmente em escala até maior.

Porém, se por “drogas” nos referimos a substâncias psicodélicas, como por exemplo cogumelos, tal problema subitamente se transforma numa enorme vantagem…

Se há algo que se pode afirmar com absoluta certeza, é que a experiência psicodélica proporciona uma perspectiva muito mais ampla e equilibrada sobre a vida. Aparentemente, não há limites para o quanto se pode aprender e evoluir através do contato com enteógenos/psicodélicos. Se partirmos do princípio que, em nosso cenário cultural, a grande maioria dos psiconautas ingressa nesta atividade graças a uma curiosidade inicialmente despertada pelo uso da maconha, então há de se conceder o devido mérito à erva por ajudar milhares de pessoas a transcenderem as limitações de suas próprias culturas e paradigmas.

A curiosidade mencionada acima se origina no fato de que é geralmente através da cannabis que as pessoas têm seu primeiro vislumbre da “sabedoria vegetal”, ou seja, do aspecto altamente construtivo da interação psicossomática com a planta. Ainda que seus efeitos não sejam nem de perto tão dramáticos e transformadores quanto os de enteógenos (cogumelos psilocibínicos, cactos mescalínicos, ayahuasca, etc.), é digno de atenção o fato de que o hábito canábico gera interesse sobre tais estados de conexão com a natureza e de elevação da consciência – ainda que não em todos os usuários.

Benefícios da maconha
Muitas vezes se ignora aquilo que, na opinião do autor, é a maior qualidade da maconha: sua capacidade de abrir os olhos das pessoas à sabedoria da natureza e, dessa maneira, criar interesse na prática enteógena

Aliás, depois de tudo o que foi disposto acima, é importante salientar que não se pode definir a maconha como um enteógeno. Se a enteogenia dependesse de crenças ou rituais, bastaria um culto em que o lúpulo e a cevada fossem considerados elementos “sagrados” e, dessa forma, poder-se-ia tratar a cerveja como tal.  De fato, se assim o fosse, até mesmo a hóstia católica poderia ser considerada um enteógeno. A enteogenia, porém, não advém do contexto cultural… Independentemente das origens e crenças do indivíduo, uma experiência enteógena reconfigura sua percepção de vida de modo completo e permanente, aproximando-o à essência de tudo o que existe. Portanto, se a maconha fizesse parte desse grupo de substâncias, certamente a realidade que observamos nas favelas e periferias de nosso país seria tão pacífica quanto aquela que se presencia em comunidades daimistas, apenas para citar um exemplo.

A ampla difusão da cannabis não resulta necessariamente em harmonia social porque, por não se tratar de uma experiência efetivamente psicodélica, é plenamente possível ser usuário da erva e ao mesmo tempo manter comportamentos abusivos e autodestrutivos – ainda que, logicamente, estes não sejam causados pelo seu uso (como até hoje professa a imbecil, prejudicial e falaciosa política de guerra às drogas). Já no âmbito enteógeno, as atitudes do indivíduo devem, inevitavelmente, adaptar-se a um padrão ético que se forma no decorrer da própria experiência (e não a um padrão imposto culturalmente). Assim, a experiência psicodélica dissolve os modelos mentais programados culturalmente e direciona a consciência àquilo que realmente importa.

Em conclusão, sem ignorar seus detalhes terapêuticos, medicinais, bem-estar, etc., não tenho dúvidas de que o maior benefício da cannabis é o de que ela realmente pode levar a drogas mais fortes – lembrando que por “droga” deve-se também entender “medicina”. A coragem para usá-las em uma dosagem efetivamente enteógena, porém, depende de cada um… E quem chega lá sabe que não há recompensa maior (ao menos não neste canto da galáxia, aparentemente).

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Um Novo Vocabulário Para Uma Nova Era, Parte 2

Neste artigo, seguirei apresentando algumas reflexões sobre termos e expressões que, em minha opinião, necessitam ser repensados (e abandonados), tendo em vista o desenvolvimento de novos saberes e conhecimentos. Se você não leu a primeira parte, clique neste link.

vocabulário psicodélico
Ou você utiliza a linguagem para desenvolver novas possibilidades, ou a linguagem lhe utiliza para perpetuar paradigmas obsoletos…

Sagrado – ainda que hajam práticas cuja relevância merece ser destacada, tais como o xamanismo e o tantra, não me parece adequado que em pleno século XXI se utilize a palavra “sagrado” para exaltar alguns elementos destas atividades. Este conceito é intimamente relacionado a religiões e dogmas, ao passo em que as referidas práticas consistem em vias de ampliação da consciência eminentemente sensoriais e isentas de doutrinação. Quando se diz, por exemplo, que sexo é sagrado ou que cogumelos são sagrados, fica subentendido que tais atividades deveriam ser necessariamente ritualizadas e reverenciadas de forma religiosa. Sexo é importante para todos e cogumelos são importantes para todos (ao menos todos que os conhecem), mas rituais e religiões apenas o são para quem os necessita – afinal, não passam de construções culturais e, portanto, suscetíveis à ação do tempo. Assim, sempre que alguém utilizar a palavra “sagrado” para definir alguma coisa, pode ter certeza que esse alguém não entende muito do assunto, pois está limitado ao modelo cultural a que pertence.

Místico – este termo não é nada mais que uma maneira estilizada de se referir a algo que não se compreende. É um pouco menos infantil que dizer “mágico” e um pouco mais informal que dizer “paranormal”. No fim das contas, se forem utilizados num contexto sério, todos esses adjetivos são igualmente inúteis, representando apenas uma espécie de glamourização da falta de conhecimento objetivo. Em outras palavras, nunca diga que sua experiência psicodélica foi “mística”… Caso contrário, estará dando razão às pessoas que acham que você fritou os neurônios. A experiência psicodélica é transformadora, indescritível e imensuravelmente intensa – referir-se a ela como algo “místico” é como compará-la a um jogo de tarot ou a uma história de fantasia.

Iluminação – a menos que se esteja falando sobre instalações elétricas, não é conveniente o uso desta expressão essencialmente religiosa. A palavra “iluminação” remete à ideia de um ápice na evolução do ser humano e da mente. Tal ponto máximo seria a chegada a uma suposta “consciência divina”, marcada pela libertação das “prisões mentais” da vida material. A experiência e o saber acumulados ao longo dos milênios nos provam que, independentemente de filosofias e outros aspectos culturais, sempre haverá um novo degrau a se subir na interminável escadaria do conhecimento. Assim, quando figuras como yoguis, monges budistas, profetas, xamãs, etc. são consideradas iluminadas, isso apenas significa que as pessoas que as veem dessa forma carecem da sabedoria para se sentirem iluminadas elas próprias, necessitando projetar tal conceito utópico naqueles indivíduos que possuem a mente mais aberta.

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Um Curto Jejum Como Potencializador dos Efeitos de Psicodélicos

É amplamente conhecida e difundida a tradicional prática do jejum prévio ao consumo de elementos psicodélicos. Isso se observa nas mais diversas sociedades de traços xamânicos em todas as partes do planeta, sendo possível afirmar que os grupos que não adotam este costume representam a grande minoria.

Geralmente, tal hábito se resume ao mesmo dia em que se dá a ingestão da substância, mas em algumas tradições a dieta se estende por vários dias preliminares a tal evento. Este é o caso de algumas linhagens indígenas da Amazônia (que utilizam Ayahuasca, Chiric Sanango, Toé, entre outras plantas) e dos EUA e México (que em alguns casos fazem o uso do cacto Peiote trás a “busca da visão” – uma iniciação que basicamente consiste num longo jejum solitário/introspectivo em meio à natureza).

Ainda que estes últimos exemplos certamente pareçam um tanto radicais à nossa cultura, é importante notar que mesmo um pequeno jejum no mesmo dia em que se faz o uso de um psicodélico intensifica (às vezes muito) seus efeitos. Há uma série de explicações científicas/biológicas para tal, além de milhares de anos de constatação empírica deste fato – observando-se que este texto apenas diz respeito a substâncias ingeridas, excluindo-se portanto os psicodélicos fumáveis (ao exemplo da Salvia divinorum).

Deve-se mencionar também que esta prática tem o único intuito de ampliar os efeitos psicodélicos propriamente ditos (lembrando que “psicodélico” vem do grego psique delein – o que revela a mente). Dessa forma, tal abstenção logicamente não faria sentido quando se faz o uso de um psicoativo com propósito lúdico/recreativo – até mesmo porque nestes casos dificilmente se utilizam dosagens de volume sequer próximo aos aplicados nas mencionadas iniciações tradicionais, sendo assim fora de contexto a intensificação da experiência psicodélica.

Jejum para experiência psicodélica
Se você for passar o dia sozinho(a) num lugar 100% tranquilo, que tal comer nada mais que cogumelos enteógenos na primeira refeição do dia?

Resumindo, este artigo é uma referência exclusiva ao(à) psiconauta propriamente dito(a), cujo propósito, tal qual em linhagens xamânicas milenares, deve ser a ampliação da mente e dos sentidos. Se você se identifica com isso, faça um desjejum com nada além de seu psicodélico de preferência. Caso você prefira “viajar” de noite, então experimente abster-se do almoço. Certamente sentirá uma considerável diferença… E logo os “alimentos dos deuses” apresentarão toda sua fartura, até que a sua fome de conhecimento seja saciada.

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Cartilha de Medição Psicodélica

A ideia aqui foi mapear a atividade psicodélica numa forma em que qualquer psiconauta possa facilmente identificar suas experiências. Trata-se de uma definição conceitual das diferentes etapas de ampliação sensorial através do uso de psicodélicos/enteógenos – uma escala o mais realista possível, resultado dos relatos de centenas de indivíduos e da observação do próprio autor.

Os quatro estágios descritos a seguir seguem uma ordem crescente de intensidade. Não serão mencionadas dosagens de substâncias específicas, pois são fatores que variam de pessoa para pessoa – e até mesmo porque outras circunstâncias (como por exemplo o ambiente) também são determinantes para a profundidade de uma experiência psicodélica. Note-se ainda que não se trata de uma medida referente à evolução do usuário, mas à experiência em si.

NÍVEL 4

Há uma abertura da mente a entendimentos não tão distantes daquilo que se poderia elaborar no cotidiano. A consciência segue atrelada ao ego, apesar de ser um momento mais introspectivo e propenso a pensamentos transcendentes. Também os sentidos se alteram, fazendo com que o indivíduo tenha uma experiência sensorial notavelmente distinta da vivência cotidiana. A empatia (compreensão e conexão ao próximo) é amplificada. Por não proporcionar efeitos além deste nível, a classificação da maconha como um psicodélico é um assunto controverso.

NÍVEL 3

Neste nível, a mente divaga num plano criativo e perspectivo inteiramente diverso ao da vida diária. Os insights são frequentes, ou seja, o sujeito tem ideias e compreensões às quais não haveria chegado fora da via psicodélica. O plano sensorial, em especial o visual, é amplamente transformado, sendo muitas vezes diretamente influenciado pelos pensamentos e pelo subconsciente (aqui origina-se a estética característica da chamada “arte psicodélica” ou “arte visionária”). O ego já não se mantém intacto, havendo momentos (frequentemente assustadores) de autoconfrontação, regularmente seguidos da resolução de desequilíbrios entre consciente e subconsciente (tais como traumas, vícios, fobias, etc.) – eis o tão mencionado caráter terapêutico dos psicodélicos. É comum recordar-se de eventos da primeira infância e refletir sobre pessoas e acontecimentos habitualmente ignorados. Há uma maior conexão com tudo ao redor, sendo frequente a sensação de comunicar-se com animais ou até mesmo com plantas e objetos.

NÍVEL 2

Nesta etapa, ocorre um completo encontro entre o consciente e o subconsciente. O indivíduo passa a observar todas as coisas, materiais ou imateriais, em sua essência. Nada aqui está sujeito ao ego: este se submete à infinitude existencial (o que não raro consiste numa experiência absolutamente aterrorizante), dissolvendo-se para posteriormente se reconstruir de maneira condizente ao entendimento absorvido no curso da experiência. Nenhuma forma de ideologia sobrevive a este “furacão”. A ampla transformação dos sentidos leva à sinestesia e a uma indescritível profusão de cores e formas geométricas. Muitas pessoas dizem recordar-se da vida intrauterina. Regularmente se faz referência a este tipo de experiência como “êxtase transcendental”, dada a sensação de unidade com o universo e tudo o que nele existe. Após uma experiência dessas, a maneira da pessoa ver a vida jamais será a mesma. Além disso, a partir deste nível são comuns os relatos de contato com formas de inteligência extradimensionais.

NÍVEL 1

A explicação de uma experiência psicodélica de primeiro nível é rápida e ao mesmo tempo incompreensível para quem não tenha passado por ela. Se trata de um evento mais significativo do que o próprio nascimento, além de ser o mais instrutivo (e possivelmente o mais difícil) desde então. É como se tudo o que já foi vivido fosse um mero detalhe em comparação à experiência. Em outras palavras, já não é tal evento que é apenas uma parte da vida… A vida é que é apenas uma parte de tal evento. Para psiconautas experientes, descrevo este estágio como a absoluta dissolução de ilusões conceituais relativas a tempo, espaço, matéria e existência.

 

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