Psicoativos e Enteógenos

A verdade sobre o mito das bad trips – revendo conceitos

Neste artigo, tenho a pretensão de fazer com que se repense a terminologia “bad trip” e se reflita a respeito do papel da experiência psicodélica em nossa cultura. Já vou logo esclarecendo que, em minha perspectiva pessoal, não existem bad trips… O que talvez existam são bad trippers.

Podemos começar lembrando que a expressão popular bad trip (como você já sabe, “viagem ruim” em inglês) tem sua origem na cultura ocidental da segunda metade do século XX. Aqui devemos observar que se trata de um modelo cultural onde um dos aspectos mais valorizados é o conforto. Glorifica-se o conforto no trabalho, nos ambientes, nos momentos de lazer, etc. É certo que o ser humano busca maior conforto em sua vida diária desde a pré-história, mas nunca obteve os meios para adquiri-lo de forma tão acelerada quanto nos últimos cinquenta anos.

Ok, mas o que as bad trips tem a ver com isso?

O que ocorre é que, uma vez plenamente inserido neste contexto cultural, o ser humano tem a expectativa de que todos os aspectos de sua vida sigam a mesma lógica (o conforto progressivo) – inclusive sua relação com as drogas. A tendência é que algo que fuja a este padrão seja visto como “mau” ou “ruim”.

Deveríamos sempre partir do princípio universal de que a experiência psicodélica é uma forma de aprendizado (um aprendizado muito amplo e profundo, diga-se de passagem). Dessa forma, não podemos esperar que todas as etapas deste aprendizado sejam necessariamente fáceis. Na verdade, muitas vezes as lições mais difíceis são as mais importantes.

A própria expressão bad trip já carrega a ideia de negatividade, algo como uma experiência “ruim”. Certamente, afrontar os próprios medos, viajar por outras realidades e romper com os limites culturais que impõem ao indivíduo uma suposta “normalidade” são aspectos recorrentes (ou mesmo incontornáveis) da atividade psicodélica, nem sempre consistindo em experiências suaves e confortáveis. Isso não faz deste tipo de experiência algo ruim – isso apenas significa que não é fácil… De fato, pode ser algo indescritivelmente assustador.

A verdade sobre o mito das bad trips

Assim, se uma viagem psicodélica fosse vista antes de tudo como aprendizado, poder-se-iam apreciar os momentos mais conturbados deste mergulho existencial/dimensional com certa naturalidade. Por esse exato motivo, num contexto xamânico nunca se fala em bad trips nem nada desse estilo. No caso, tem-se a plena consciência de que este evento levará o indivíduo a uma (possivelmente árdua) jornada rumo ao infinito – o que resultará no seu amadurecimento como ser humano, ou seja, no autoconhecimento. Conclui-se que, quando alguém diz que teve uma bad trip, o que ocorreu foi simplesmente que a pessoa se assombrou com a abertura da mente e cedeu ao medo e à insegurança, o que por sua vez é uma fase natural da evolução individual através da atividade psicodélica.

Para finalizar com uma boa metáfora, em se tratando de psicodélicos, ninguém deveria navegar no alto-mar na estação de chuvas somente pensando em ver golfinhos. Em outras palavras, não se pode tomar meio miligrama de LSD ou meio litro de ayahuasca e esperar que será apenas um passeio colorido. Quando o horizonte escurecer e surgir uma enorme tempestade, não é certo reclamar da viagem. Não é a viagem que é “ruim”… É o viajante que não conhece ou não respeita o mar.

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

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