Psicoativos e Enteógenos

A Superação da Lógica Materialista Através da Prática Psicodélica

Desde a explosão da contracultura dos anos 60, é amplamente reconhecido o caráter essencialmente anti-materialista da experiência psicodélica. O estereótipo do hippie economicamente despreocupado e “alérgico” a gravatas, protocolos e horários, dentre outras “caretices” do mundo profissional, já é uma parte integrante do folclore popular no que diz respeito ao uso dessas substâncias. De que maneira tais experiências resultam em desapego material? É o que veremos a seguir…

Sendo a sobrevivência o instinto mais primordial de todas as formas de vida, paralelamente à reprodução (que também consiste numa forma de sobrevivência, mas a nível genético), é natural que, ao menos na maior parte do tempo, a mente humana esteja focada em desenvolver suas condições de segurança. Para o homem pré-histórico, essa segurança consistia basicamente na obtenção de comida, na defesa contra inimigos e animais ferozes e na proteção às intempéries climáticas. Com a descoberta da agricultura, deu-se início à era do acúmulo de alimentos e da sedentarização que, por sua vez, possibilitou uma explosão populacional e cultural, dando o pontapé inicial à civilização tal qual a conhecemos hoje – ou seja, baseada na lógica de mercado e caracterizada pelo comportamento obsessivo quanto à aquisição de bens e riquezas.

Não foi até meados do século passado que a humanidade começou a dar-se conta do lado mais perverso do materialismo. Com o desenvolvimento científico, que levou à observação objetiva das transformações ambientais decorrentes da ação humana e ao consequente nascimento da ecologia, descobriu-se que o preço do acúmulo desenfreado era nada menos que a saúde do próprio planeta. Em suas vidas diárias, as pessoas continuam guiadas pelo mesmo instinto de sobrevivência que levou ao triunfo de nossa espécie sobre as ameaças naturais. Em outras palavras, vivemos sempre atrás de uma graninha, para dessa forma garantirmos um futuro mais seguro a nós mesmos e à nossa prole. Logo, vivemos pensando no futuro. Uma experiência psicodélica, porém, muda tudo…

A experiência psicodélica é uma radical reconexão com a realidade do presente. Nem uma fantasia, nem uma alucinação e nem qualquer outra coisa que os acadêmicos gostariam que fosse (para assim poderem ignorá-la mais veementemente), mas sim a extraordinária vivência do aqui e agora. Através desse tipo de experiência, redescobre-se o incrível que é o papel do ser humano como observador consciente da existência, além do aspecto absolutamente transcendental da mesma. Não há riqueza material que conduza a esse entendimento primordial e, portanto, não há riqueza material que seja mais importante do que isso.

experiẽncia psicodélica
A experiência psicodélica é o caminho mais rápido à percepção da origem transcendental da realidade e de sua infinitude… Não em outro mundo, não em outro momento, mas aqui e agora

Assim, é o caráter imediato da experiência psicodélica – arrebatando a consciência da superficialidade e conduzindo-a à indescritível e real profundidade e complexidade do agora – o que faz desta atividade uma maneira infalível de romper com os grilhões da cultura exageradamente materialista/acumuladora, que aprisiona a humanidade numa espiral de satisfação momentânea e autodestruição permanente. No universo psicodélico, o verbo “ser” se sobressai e ofusca o verbo “ter”. Em última instância, isso pode (e deve) ser visto como um antídoto ao consumismo desenfreado, que é a maior ameaça ao planeta Terra que já se teve notícia. Uma cura que não necessita qualquer revestimento ideológico, pois nasce no âmago da consciência de cada um.

Aparentemente, a maior controvérsia no que diz respeito à experiência psicodélica é essencialmente esta: ela realmente funciona. Cabe a nós, cujos olhos foram abertos à espetacular infinitude do presente, demonstrar ser esse o seu mérito, e não o seu problema.

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