Psicoativos e Enteógenos

A indústria cultural, a atividade psicodélica e o Capitão América

Por que os holofotes culturais não focam os psicodélicos

A atualidade é uma era de veneração a estímulos audiovisuais. A crescente complexidade funcional e praticidade operacional de dispositivos móveis, somados à internet ultrarrápida, levaram a relação do ser humano com a tecnologia a um outro nível. Se há cem anos o campo de batalha e de conciliação cultural eram os livros, hoje este espaço pertence às mídias digitais. Tendo em vista que a experiência psicodélica proporciona uma inegável amplificação da percepção da realidade e superação de limitações psicológicas, conforme se vem observando pelo ir e vir dos séculos, cabe indagar por que essas mídias pouco contribuem para a difusão da cultura psicodélica e para o fim do preconceito relacionado a essa prática.

Já reparou como os produtos culturais de maior sucesso parecem haver sido feitos para crianças (ainda que o público-alvo seja majoritariamente composto por adultos jovens)? É o que se pode deduzir de filmes cuja trama seja protagonizada por super-heróis. A infantilização das relações de poder pelas indústrias midiáticas de nosso tempo (no caso, a cinematográfica) leva à infantilização da maneira com que o público em geral pensa esse tipo de tema. Esta infantilização não é uma imposição da mídia… O próprio público, em sua grande maioria, está tomado pelo desejo de ser infantilizado. Em outras palavras, o produto cultural é apenas resultado das aspirações populares, e não da intrincada estratégia de uma suposta elite dedicada a conspirar pela alienação das massas, como muitos imaginam. As próprias massas buscam (ou necessitam) alienar-se, sendo que a indústria de entretenimento (música pop, Hollywood, videogames, etc.) apenas lhes fornece o que vende melhor. 

Qual seria o motivo das massas buscarem a alienação? Difícil de explicar… Talvez seja algo atrelado à própria vocação do ser humano em fechar os olhos à realidade. Certamente, algo muito parecido ao motivo pelo qual o álcool e a maconha são os psicoativos de preferência na sociedade em que vivemos, e não os cogumelos e a ayahuasca.

Finalmente, por falar em cogumelos e ayahuasca, eis o grande “antídoto desinfantilizador” da mente humana: a experiência psicodélica. Queira ou não, ao passar pelo renascimento psicodélico (algo desencadeado, por exemplo, pela ingestão de uma dúzia de cogumelos psilocibínicos maduros frescos), sua visão sobre a vida, a sociedade e a cultura irá amadurecer. Eis a razão pela qual os psicoativos não-psicodélicos são muito mais populares que seus congêneres psicodélicos: o ser humano não quer amadurecer e nem ver a realidade. 

Considerando isso tudo, está explicado porque, ao se falar em Capitão América, logo vem à mente o personagem da Marvel (e as bilheterias multimilionárias da série Os Vingadores), e não o veículo homônimo do excelente filme Easy Rider (“Sem Destino”, 1969). De um lado, um ícone da alienação juvenil, empunhando o escudo do politicamente correto. Do outro, um motoqueiro hippie defensor da verdadeira liberdade, desmascarando as hipocrisias da sociedade conservadora. Um representando a América do Tio Sam, o outro a América de Timothy Leary… Os únicos pontos em comum entre os personagens: a referência à patente de capitão, a indumentária estadunidense ao extremo e o bom caráter.

A indústria cultural, a atividade psicodélica e o Capitão América
O super-herói Capitão América da Marvel (Chris Evans) e a moto Capitão América do hippie Wyatt (Peter Fonda). Se apenas a figura da esquerda lhe é familiar, é porque a cultura pop é preferencialmente infantil e superficial.

Link para o filme Easy Rider dublado no youtube (a qualidade deixa a desejar… Infelizmente, o filme não está disponível no idioma original). Provavelmente, esta bela obra ganhará algum revival nostálgico no ano que vem, por conta de seu aniversário de 50 anos.

Link para a música Ezy Ryder no spotify (Jimi Hendrix, 1969, inspirada no filme).

Viajando sozinho pelo desconhecido, você encontrará a si mesmo no meio do caminho.

Compartilhe com o Universo
  • 8
    Shares
Etiquetas
Fechar
Fechar