Miscelânea

A Importância Histórica da Identidade Psicodélica

Uma análise da prática psicodélica como motor de evolução cultural nos séculos XX e XXI

Começando pelo surrealismo do período entreguerras, seguindo com o movimento beat dos anos 50 e a consequente cultura hippie para, finalmente, chegar à geração do ecstasy na virada do milênio, podemos observar que tais identidades psicodélicas prosperaram em meio às transformações sociais do século passado – ora adaptando-se a estas, ora causando-as. Neste artigo, buscar-se-á demonstrar que, mais do que simples modismos ou tendências artísticas, estes movimentos foram importantes “ensaios” para uma revolução psicodélica que ainda está por vir.

A noção da psicodelia como evolução da mente nunca fez um sucesso muito grande. O que ocasionalmente fez e ainda faz sucesso é a estética psicodélica na arte. Isso se dá pelos seguintes motivos:

  1. O efetivo desenvolvimento mental através da atividade psicodélica costuma ser um processo difícil, apesar de muitas vezes apresentado como simplesmente divertido. Quando as pessoas percebem esta realidade, geralmente se afastam dessa prática;
  2. Há muita desinformação quanto à função da atividade psicodélica. Ninguém fica louco ou chapado com o uso de psicodélicos. O que ocorre com frequência é uma má interpretação da amplificação sensorial (resultado do condicionamento cultural);
  3. A ilegalidade da maioria dos psicodélicos implica num contexto de uso inadequado, aumentando ainda mais a confusão sobre a utilização e o propósito dessas ferramentas.

Se dependesse de fundamentação científica, tais erros já estariam solucionados há muito tempo. No entanto, a questão da psicodelia ainda possui um caráter muito mais cultural do que lógico. O cenário atual carece de uma identidade que apresente tal prática com uma atitude séria, sendo o uso destas substâncias representado como problema social, misticismo ou até mesmo motivo de piada. Dá-se a entender que apenas um cientista ou acadêmico de ampla formação estaria apto a falar sobre o tema de forma objetiva. Não é de se admirar a existência deste tipo de preconceito, considerando que muitas vezes o próprio usuário afirma ficar “muito louco” ao utilizar esta ou aquela substância psicodélica.

A formação de uma nova identidade psicodélica – consonante ao saber científico – implica na completa superação de conceitos inadequados, tais como “bad trips”, “alucinações”, “ficar muito louco” e besteiras do tipo. Tratam-se de terminologias tão infantis e desacertadas que limitam qualquer abordagem construtiva à abertura da mente e ao despertar psicodélico. 

No decorrer da história, outros preconceitos relacionados a esta atividade foram progressivamente superados – sempre como resultado da propagação de determinada identidade psicodélica. Com o surrealismo e a geração beat, demonstrou-se que a experiência psicodélica não acarreta um retrocesso da racionalidade, apenas a faz transcender as limitações da vivência cotidiana; já o movimento hippie (de certa forma continuado pela contracultura eletrônica no fim do século) demonstrou que esta prática não corrompe a moralidade das pessoas, apenas as liberta dos moralismos vigentes.

 

Graffiti em homenagem ao pintor espanhol Salvador Dalí, expoente do movimento surrealista da primeira metade do século XX. Onde seus contemporâneos enxergavam loucura criativa, hoje se vê genialidade.

 

Seja qual for a forma e as peculiaridades que a nova identidade psicodélica irá incorporar, o que se pode afirmar é que, se ela não desenvolver esta discussão num nível objetivo, o tema continuará envolto numa aura de misticismo, comédia e ilegalidade. No momento em que nossa cultura abandonar essa abordagem retrógrada, estaremos a um passo de uma revolução psicodélica.

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